DARK GERO


02/05/2009


Demorou, mas tamos aí!

 

Senhoras e senhores! Perdão pela demora! Sabem como é, né? Escrever é fácil, criar é prazeroso... O problema é o Sr. Tempo. Mas eu fiz uma negociação com ele e aí está mais uma parte do conto MELODIA DE LUGAR NENHUM, terceira parte!

http://darkgero.blogspot.com/

Escrito por Dark Gero às 17h58
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23/02/2009


Dark Gero

 

Entre certezas e devaneios, nasce meu destino.

 

Escrevam o que estou dizendo: Vou conquistar o mundo (ou copiem e colem rsrsrs)

Escrito por Dark Gero às 19h45
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19/02/2009


Mais um do Melodia!!!

Ladies and Gentlemen!

 

 

Um pouco mais acelerado que sou usualmente, acabei escrevendo outra parte do Melodia de Lugar Nenhum. Senhoras e Senhores:

 

http://darkgero.blogspot.com/

Escrito por Dark Gero às 19h06
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18/02/2009


Melodia de Lugar Nenhum!!!

 

Senhoras e senhores, a espera acabou. Como esse servidor estava me enxendo o saco, resolvi passar para outro para publicar a emocionante história MELODIA DE LUGAR NENHUM, continuação de LUGAR NENHUM  e MELODIA. Não poderia deixar minhas lindas personagens esperendo, não é? (Isso mesmo. Bruna e Gil são de carne e osso!). Então, clique logo no link e se não der certo, copie e cole na barra de endereços.

 

Thank You...

 

 

http://darkgero.blogspot.com/

 

.Obs: a imagem acima nada tem a ver com a mensagem, mas é bonito o lugar, não? rsrsrs

Escrito por Dark Gero às 19h05
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30/01/2009


Continuação de Melodia (parte IV) por Dark Gero

Caros leitores, perdão pela péssima qualidade deste post. É que não ta dando pra colar direto do word os contos, então improvisei e ficou essa coisa estranha aí. Essa é a conclusão da parte IV. Desçam um pouquinho, depois subam e leiam este post, blza?

 

repito, leiam o conto de baixo, depois pulem pra esse!

 

rsrsrs

 

− Está louco, Sastu? Não precisamos fazer isso! – Perine abrira os braços novamente.

Bruna estava tremendo. Sabia que Perine não conseguiria sozinha com três.

− É o mais sensato a fazer, Perine! – gritou o de cabelos compridos, que só poderia ser o Vabri. – Se Divarius pôr as mãos nela, será o fim do nosso clã!

− Isso mesmo, Perine! – disse Kioru. – Não vale a pena arriscarmos tanto por uma humana.

Bruna correria, se suas pernas trêmulas aceitassem seus comandos. A morte estava próxima. Não haveria como sair daquela viva. Lembrou-se de suas duas melhores amigas... Que nunca mais as veria novamente...

− Calef nunca concordaria com isso! – Perine gritou. – Ele foi conjurado pelo desmorto da rainha. Em breve irá despertá-la. Não precisamos fazer isso!

− A rainha nos abandonou. Se resolveu fugir para um mundo falso e nos deixar como estamos, ela que fique onde está – Disse Sastu dando um passo à frente.

− Não vão pôr um dedo nela! – gritou Perine inclinando o corpo para a frente, em posição de ataque.

− Sabe que não pode com a gente, Perine. Vamos derrubá-la se necessário.

− Venham! – desafiou Perine mostrando as presas.

Os três vampiros avançaram.

Bruna fechou os olhos. Era seu fim.

− Ninguém toca nelas! – uma voz trovejante saiu da escuridão. A voz, apesar de terrivelmente ameaçadora era música para os ouvidos de Bruna.

Os cinco olhares convergiram para um ponto entre as árvores, onde dois vultos eram iluminados pela lua na clareira. Um deles era alto, o outro era uma garota de óculos, indefesa e assustada atrás dele.

− Calef! – gritaram Bruna e Perine ao mesmo tempo.

− Rainha!? – gritou Kioru.

− Dêem mais um passo e vou arrancar a cabeça de vocês com os dentes! – trovejou Calef com os olhos vermelhos cintilantes.


                      (continua em Melodia de Lugar Nenhum)

 

Agora sim!

Escrito por Dark Gero às 21h18
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Melodia (parte IV) por Dark Gero


Bruna não saberia dizer o que aconteceu depois que tapou os ouvidos. Tudo o que se lembrava era da gata transformar-se em mulher e lançar-se para cima dos desmortos exibindo suas presas de vampira. Assustou-se quando uma mão gelada tocou seu ombro:

− Está tudo bem, garota. Eles se foram.

Era ela, a vampira-gata que acabara de salvar sua vida. Bruna virou-se contemplando aquele rosto lindo, impossível. Seus olhos eram de um laranja-fogo e seu cabelo era comprido, de uma estranha cor cinza quase branca. Aparentava ser nova, mais ou menos da idade de Calef.

− Quem... quem é você? – bruna balbuciou, ainda sentindo-se sob efeito de alguma droga.

A mulher de cabelos cinza sorriu, fazendo um gesto com a mão. Bruna instantaneamente voltou ao normal. Não estava mais com medo, mas queria saber quem a estranha era. Um nome veio à sua cabeça no mesmo instante em que a mulher respondia:

− Perine. Meu nome é Perine.

Uma onda de alívio percorreu o corpo de Bruna. Estava a salvo.

− Perine! Estava esperando por você, e...

− Vamos embora antes que eles retornem – interrompeu-a secamente. – Desmortos não morrem a menos que o vampiro que os amaldiçoou o faça. Eu apenas os mantive à distância.

Bruna tentava imaginar o que Perine havia feito para expulsar os desmortos, mas não se atreveu a perguntar. Tinha outra pergunta em mente.

− Onde está Calef?

Perine estreitou os olhos, segurando-a pela mão. Começaram a caminhar entre as árvores escuras.

− Ele foi conjurado por um Desmorto Real para um mundo mental.

Perine percebeu a ruga na testa de Bruna e resolveu explicar:

− Desmortos reais são humanos transformados por vampiros de linhagem pura, que chamamos de reis ou rainhas, já que possuem poderes suficientes para dominar todos nós. Esses vampiros especiais dominam um clã inteiro e são responsáveis por ele. Calef deve ter te advertido sobre Divarius, não?

Bruna apressou-se em balançar a cabeça confirmando. Perine continuou:

− Divarius é descendente direto de um vampiro de sangue puro, porém, não tem os mesmos poderes que um vampiro real, claro. Mas Divarius tem um poder oculto misterioso, temido por todos os da nossa raça. Acontece que se ele conseguir se reproduzir nascerá o herdeiro supremo do clã dele, mais poderoso que dez vampiros reais puros. O sonho dele é nos tirar do anonimato e dominar o mundo.

Bruna ouvia tudo atentamente, tentando digerir aquelas informações fantásticas, que embora desafiassem sua razão, já eram aceitas mais naturalmente. Perine apenas continuou:

− Nosso clã foi abandonado por nossa rainha, uma das mais poderosas. Ela resolveu mergulhar em uma realidade artificial, idêntica ao mundo em que você está acostumada a viver. Sendo assim, apagou todas as memórias que tinha, e renasceu nesse mundo criado por ela. Esse é um dos poderes dos vampiros reais: criar mundos paralelos só deles...

− Por que ela fez isso?

− Por razões que desconhecemos. Há uma conspiração terrível entre os vampiros. Ela deve ter tido suas razões. Quando um vampiro real faz isso, a única maneira de voltar às memórias é se alguém a despertar.

− Despertar?

− Sim. Fazê-la retornar às suas memórias. É como se ela estivesse dormindo, perdida no mundo dos sonhos. Apenas certas pessoas podem fazer isso, mas se isso acontecer, tomam para si o controle sobre os despertados. Isso é um direito milenar, são nossas leis.

         − Não entendi...

− Não a culpo. Em breve isso tudo será natural para você. Você é uma peça importante nisso tudo. Divarius descobriu onde era o mundo da rainha, e mandou um de seus desmortos despertá-la. Isso é geralmente feito confundindo sua mente com distorções do mundo irreal. Nosso clã descobriu os planos de Divarius e mandou o desmorto da rainha para despertá-la também, já que não havia outra saída. Só assim ao despertar ela não se tornaria escrava de ninguém, já que seu desmorto já é seu escravo. De alguma maneira o desmorto de Divarius conseguiu convencer a rainha a matar seu próprio desmorto. Antes de sumir completamente, ele usou suas forças para conjurar um vampiro do mundo real. Apenas desmortos reais têm esse poder.

− Esse vampiro era...

− Sim. Havia me encontrado com Calef quando ele foi conjurado. Nesse momento ele deve estar trazendo a rainha para esse mundo, para tentar despertá-la. Divarius com certeza não desistiu ainda, então temos trabalho em dobro, já que temos que proteger você também. Agora ande mais rápido, garota. Os desmortos de Divarius retornarão a qualquer momento.

Bruna estremeceu ao imaginar a cena, mas sentia-se segura com Perine.

− Para onde estamos indo?

− Encontrar com o clã.

− O... Clã...?

− Eles vão decidir o que fazer com você. Por enquanto nossa missão é escoltá-la e protegê-la para que Divarius não coloque as mãos em você.

− Mas... E quanto a Calef? Eu quero vê-lo...

− Não se preocupe, Calef me pediu para não deixar que nada acontecesse a você. Eu prometi que iria.

− Mas esta... é apenas sua missão, certo? – as palavras saíam hesitantes.

Perine olhou Bruna nos olhos.

− Não, querida. Nossa missão é protegê-la de Divarius apenas.

− Então se eu morrer... – Bruna engasgou-se na própria voz.

− Vai nos poupar um trabalho tremendo.

Um barulho sobre as árvores sobressaltou as duas. Perine segurou ainda mais a mão de Bruna. Havia algo movendo-se com incrível velocidade sobre elas.

− Corra! – gritou Perine puxando Bruna.

As duas alcançaram uma clareira, onde a luz da luz iluminava com mais intensidade. Perine se colocou na frente de Bruna, abrindo os braços para protegê-la.

Três figuras saíram das sombras.

Perine sorriu.

− Vabri! Kioru! Sastu! – ela gritou.

Eram três homens altos, vestidos de preto. Bruna não demorou a deduzir que também eram vampiros. Devia ser algum tipo de uniforme o estilo gótico, pensou. Um deles tinha cabelos compridos, estava com uma jaqueta preta. Estava maquiado sombriamente, com batom preto nos lábios. Outro, o mais musculoso, era careca; tinha uma tatuagem na testa de um estranho símbolo. Suas roupas negras tinham mangas compridas. O terceiro, que estava no meio, tinha cabelos curtos. Estava maquiado também, com uma estranha saia de couro sobre suas calças. Estava sem camisa, mostrando os músculos bem definidos. Os três tinham olhos vermelho-sangue. Pareciam formar uma banda de rock pesado, imaginou Bruna.

− Nós assumimos daqui, Perine – disse o de saia, com um olhar frio, indiferente à felicidade de Perine em reconhecê-los.

− Estava levando-a para o nosso clã, Kioru.

− Eu sei – falou o que atendia pelo nome Kioru. – Estamos aqui por ordem dos anciões. Como a rainha não está aqui, eles tomaram a decisão. Não precisa mais levar a garota até o clã.

Perine enrijeceu. Atrás dela, Bruna estava petrificada.

           − O que vão fazer com ela?

− Matá-la agora mesmo – disse o careca.

            

           (Não deu espaço no blog. Relaaaaxem. Continua mais um pedaço)

Escrito por Dark Gero às 21h08
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17/01/2009


Lugar Nenhum (Parte IV) por Dark Gero


Gil abriu os olhos com dificuldade, sentindo uma forte dor na nuca. Tocou o local dolorido e detectou que estava inchado. Uma luz ofuscava sua visão; tapou os olhos para não feri-los com a claridade. A princípio achou que estava de dia, mas logo percebeu que não. A luz saiu de seu rosto. Piscou várias vezes para que pudesse enxergar melhor.
Gil afastou-se de costas, sentada no chão frio, ao reconhecer quem estava em sua frente.
─ Oi, Gil ─ ele disse tranquilamente. Era a mesma voz grave que ouvira no shopping ao celular, e o mesmo rosto que vira tantas vezes no Orkut. Era Dark Gero.
Ele estava encostado em uma parede, segurando uma lanterna nas mãos. Deu um sorriso impassível. Gil olhou para os lados, tentando se situar. Claro que não estava mais em sua casa. Aquilo era... algum lugar da Universidade Federal. Uma parte bem escura, isolada. Perguntou-se como fora parar ali. Mas o que mais lhe preocupava estava em sua frente.
─ O que quer de mim? ─ ela conseguiu demonstrar raiva na voz.
─ Prazer em conhecê-la também ─ ironizou ele sorrindo. ─ É hora de esclarecer tudo, Gil. Desde o início.
Ela pensou em virar-se e correr gritando, mas um lado dela mais dominante estava disposto a saber a verdade. Por que aquilo tudo estava acontecendo?
─ Fala ─ apesar de estar com medo, sua voz era dura.
Ele sorriu.
─ Para começar, linda, Dark Gero existe realmente, é um professor jovem metido a escritor... ─ ele falava olhando para algum ponto distante. ─ Mas não sou eu. Este, aliás, é o rosto dele. Não ficaria feliz em ver o meu verdadeiro.
Ela estremeceu.
─ Quem é você?
─ Alguém que segue ordens.
─ O que você quer? ─ ela explodiu, não suportando mais aquilo.
Ele virou o rosto lentamente para ela, ainda com a mesma impassividade.
─ Acredite ou não, estou aqui para salvá-la, te dar uma chance de sobreviver. Se eles te pegarem, vai desejar nunca ter nascido.
As palavras frias dele tinham efeito hipnótico sobre ela. Como se ele lhe injetasse doses cada vez maiores de medo. Ele percebeu o pavor nos olhos dela e resolveu continuar a falar.
─ Quem você prefere? Você ou sua família?
A pergunta teve o efeito de um soco em seu estômago.
─ O... O que quer dizer? ─ a voz saiu num murmúrio.
─ Prefere morrer ou ver sua família morta?
Ela engoliu em seco.
─ Nenhum dos dois! ─ ela gritou, desafiante.
─ Claro que não. Mas não estou falando de uma terceira escolha. Eles querem você, mas se não conseguirem, vão fazer mal à sua família.
─ Eles quem!?
Ele aproximou-se dela, olhando bem em seus olhos.
─ Você é especial, Gil. Chegou a hora de despertar, descobrir quem você realmente é.
─ Do que está falando? ─ ela franziu o cenho, intrigada. ─ Eu sei quem eu sou.
Ele estreitou os olhos, com o olhar sombrio.
─ Gil... Quando disse que sua família estava em perigo, não me referia a essas pessoas que você conheceu e aprendeu a amar... Estava falando de sua verdadeira família...
─ Você está louco. Eu sei quem são meus pais. Eu não fui adotada ou coisa assim. Tenho certeza de quem eles são!
─ Eles não são reais, Gil... ─ ele falou com uma paciência quase incômoda. ─ Tudo o que você conhece, todos que conhece... Nada é real.
Ela riu. Não estava mais com medo, estava com raiva.
─ Você é um louco, um psicopata! Eu quero voltar para casa! Quero voltar para os meus pais!
─ Eu vou levar você aos seus pais... Aos verdadeiros.
─ Não! ─ ela gritou, virando-se para correr.
Ele agarrou seu braço com uma velocidade impressionante. Ela preparou-se para gritar mais uma vez.
Um estouro.
A mão dele largou a dela e ele caiu pesadamente no chão. Gil olhou aterrorizada para seu corpo, depois para a direção oposta.
Alex estava a alguns metros com a mão estirada, segurando um revólver.
─ Venha, Gil! Ele vai se levantar!
Ela ficou por um momento sem ação. Olhou novamente para o corpo caído e então correu na direção de Alex.
─ O que está acontecendo, Alex?
─ Depois eu te explico! Vamos!
Os dois correram e se viram em um bloco verde, cheio de corredores, como um labirinto. Alex parecia saber para onde estava indo e ela apenas o seguia, terrivelmente confusa. Ele encostou-se atrás de uma árvore, fazendo-a esconder-se também.
─ Gil, não acredite em uma palavra que ele tiver te dito!
─ Eu não sei em quem confiar! O que ele quis dizer?
─ Mentiras, Gil. Mentiras! Desculpa eu ter te escondido a verdade por tanto tempo. Eu preciso te contar tudo... Mas antes você tem que fazer algo por mim...
Ela olhou confusa e intrigada para ele.
Ele entregou-lhe a arma.
─ Atire nele. Se for por suas mãos ele desaparecerá para sempre.
Do fim do corredor ele surgiu, aproximando-se lentamente. Ela tremeu.
─ Apenas aperte o gatilho! ─ ordenou Alex.
─ Se me matar, ninguém poderá salvá-la, senhora.
Gil estranhou o "senhora", mas não ligou muito. Tinha de decidir se devia atirar ou não.
─ Ele não é humano, Gil ─ falou o falso Dark Gero. ─ Pense bem... Lembre-se dos momentos em que estava com ele... Alguém mais o viu?
Gil estremeceu. Um flashback se passou por sua memória. Não se lembrava de ter visto ninguém olhando para Alex quando os dois estavam juntos. Aliás... Santo Deus! As pessoas olhavam para ela como se estivesse louca, como se estivesse falando sozinha. Lembrou-se da senhora de verde olhando com estranheza para ela... do homem que aproximou-se dela, sem dar a mínina atenção para Alex... "Está tudo bem?"...
Ela apontou a arma para Alex, com as mãos trêmulas.
─ Você... Não é real!
─ Sou sim... ─ ele falou com um estranho sorriso. ─ Muito mais do que tudo o que você conhece. Está na hora de entregar-se ao lado certo, vossa alteza... ─ ele levantou-se...
Gil atirou. Sem hesitar. Foi dominada por um impulso de sobrevivência. O corpo de Alex chocou-se contra a árvore, caindo inerte no chão. O outro aproximava-se sorrindo.
─ Ainda bem que enxergou a verdade, senhora...
Gil atirou nele. Um tiro certeiro na região do ombro. Desta vez ele deu um grito gutural, agonizando de forma terrível. Cambaleou, caindo de joelhos.
─ Senhora...
─ Por que está me chamando assim? ─ ela gritou desesperada, com os olhos cheios de lágrimas. Havia atirado em duas pessoas, ou seja lá o que fossem.
─ Eu preciso... chamar... alguém... ─ ele entrelaçou as mãos, mantendo os polegares para baixo, com as pontas unidas. No meio das mãos surgiu uma ponta de luz avermelhada flutuando.
Gil arregalou os olhos ao ver que a escuridão atrás dele estava tremendo, como se algo estivesse prestes a sair de lá.
─ Finalmente ─ a voz atrás dela a sobressaltou. Era Alex. ─ Você não despertou ainda, não sabe usar os poderes e seu único servo disponível está morrendo. Vai ser fácil dominá-la com o selo agora...
Ela atirou várias vezes nele, até as balas acabarem. Os tiros não lhe causavam nenhum dano. Estava desesperadamente apavorada.
─ Não pode me matar, não foi você quem me amaldiçoou. Mas ele está morrendo, porque foi por suas mãos ─ apontou para o corpo já caído do outro. Ainda agonizava.
Gil recuou um pouco, à medida que ele avançava.
─ Está com medo de mim? ─ ele riu. ─ É porque não viu meu verdadeiro rosto...
Gil levou as mãos à boca, horrorizada. O rosto de Alex começou a deteriorar, revelando uma figura disforme, com as órbitas dos olhos vazias, como um cadáver em decomposição. Aquela boca medonha imitou um sorriso ao ver o pavor nos olhos de Gil.
Mas logo sua expressão mudou. Ele parecia apavorado, olhando para cima da garota. Uma doce melodia de gaita saiu repentinamente da escuridão. Alex começou a contorcer-se, com o corpo se distorcendo no ritmo do som, como se estivesse sendo eletrocutado ou coisa assim.
─ Calef... Maldito!
Deu um grito terrível e saltou para a escuridão na direção oposta, desaparecendo. Gil olhou para trás lentamente.
Havia um homem jovem vestido de preto pelo corpo inteiro, com dois cintos no braço, cabelos preto-azulados e com uma maquiagem gótica, não muito extravagante, apenas sombria, agachado ao lado do corpo agonizante segurando uma gaita que acabara de tocar. Seus olhos estava vermelhos, brilhando como brasas.
─ Ela... não despertou, Calef. Eu... falhei... Eles virão, e...
─ Não se preocupe, amigo. Eu assumo daqui. Nós já estamos com a escolhida por Divarius. Ela ajudará a princesa a despertar.
O moribundo deu um sorriso de satisfação.
─ Cuide dela...
─ Eu irei ─ prometeu o outro, vendo-o dar seu último suspiro. Então finalmente olhou para a figura apavorada de Gil, estática pelo medo. ─ Seu desmorto era realmente fiel a você, princesa.
Princesa? Do que ele estava falando? O coração de Gil disparou quando ele aproximou-se.
─ Já faz muito tempo. Pena que não se lembre de mim. Sinto muito por ter de despertá-la, mas é necessário que saiba de toda a verdade. Você não é humana, essa realidade foi você quem criou para se refugiar e proteger seu clã ─ ele tocou levemente seu rosto. ─ Meu nome é Calef. Preciso mostrar-lhe uma coisa. O mundo real.
─ Como... como assim? Então onde é que estamos? ─ ela murmurou, se entregando à insanidade daquela situação.
Ele sorriu.
─ Em lugar nenhum. Você está dormindo, alteza.
─ Lugar nenhum...? Isto é um sonho? ─ sua voz era apenas um fio.
Ele aproximou-se ainda mais.
─ Chame como quiser. Vou levar você a alguém que pode despertá-la...
Tocou seus lábios frios nos dela. A visão de Gil escureceu completamente...

 

(Continua em Melodia de Lugar Nenhum)

 

Escrito por Dark Gero às 20h03
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Melodia (Parte III) por Dark Gero

 

- O que quer dizer com isso? Como assim não tinha nenhum outro humano além de mim no ônibus?
Calef andou alguns metros. Olhou para cima, para as copas das árvores filtrando a luz solar sobre ele. Depois voltou a olhar para a garota, com uma certa pena dela. Era linda, tinha um belo futuro pela frente, e agora estava metida com segredos milenares.
- Eram criaturas de Divarius. Esse seu colega que via de vez em quando era o espião encarregado de monitorá-la. Todos eram seres que já morreram e que se entregaram ao poder negro dos vampiros, tornando-se escravos. Nós os chamamos de desmortos. Alguns só são vistos pela pessoa que são encarregados de atormentar, seguir, ou no seu caso, atrair. Caso Divarius tenha o que quer de você, Você vai tornar-se um deles.
Bruna sentiu um arrepio na espinha só de imaginar.
- Mas... Como eu sobrevivi? Por que o ônibus parou?
- Minha melodia - Calef sorriu mostrando sua gaita. - Tem o poder de expelir desmortos e atrair seres vivos. Alguns de nós usam isso para caçar...
O sorriso malicioso de Calef fez Bruna estremecer mais uma vez.
- Eu quero voltar pra casa! Quero sair deste lugar!
- Só quando Divarius estiver morto.
- Vampiros não são imortais? - a curiosidade abriu espaço entre o medo.
- Basta fazer-nos beber do próprio sangue. Nós sugamos sangue, sangue é vida, mas nosso sangue representa a morte. Se bebermos desse veneno maldito, morremos. Qualquer ser humano que bebe do nosso sangue se torna um desmorto, sendo escravizado pelo dono do sangue.
Calef notou o olhar apavorado de Bruna. Sabia que aquelas informações fantásticas não estavam sendo digeridas facilmente por ela. Tinha de ser paciente.
- Vamos, temos que encontrar Perine.
- Perine?
- É uma das minhas. Vamos.
Ele segurou na mão de Bruna, e só então ela notou o quanto a mão dele era fria. Por mais que sentisse medo, Calef lhe transmitia uma certa segurança, considerando-se que ele estava do seu lado e que sendo um vampiro, tinha poderes vampíricos. Andaram entre as árvores por horas. Bruna não tinha a mínima idéia de onde estava, muito menos para onde estava indo. Pelo menos era uma esperança de ficar a salvo. Depois de algum tempo, pôde avistar uma cabana na direção em que caminhavam. Chegaram até ela.
- Bem, agora basta esperar ela chegar.
- Por que esperar por ela? Eu quero ir pra casa...
Calef irritou-se.
- Não adianta discutir, garota. Se voltar pra casa vai colocar as vidas de seus pais em risco. É isso o que pretende?
Ela baixou o olhar.
Calef sentiu dó dela. Conduziu-a para dentro da cabana, que era rusticamente mobiliada. Bruna sentou-se em um sofá velho, com o olhar triste. O vampiro sentou-se ao seu lado.
- Isso tudo é pra proteger você, garota. Depois que tudo terminar, você vai embora.
- Por que estão se importando comigo? Você também é um vampiro.
- Se Divarius conseguir o que quer de você, nascerá o herdeiro mais poderoso do clã dele, que herdará poder das trevas total. Por séculos temíamos que isso acontecesse.
Ela franziu a testa.
- Quantos anos você tem?
- Mais do que possa imaginar... - ele sorriu amavelmente, abandonando sua postura rude do início. Parecia estar se apegando a Bruna.
Ela hesitou bastante antes de ter coragem de fazer a pergunta seguinte. Engoliu em seco.
- Vocês... Alimentam-se de sangue... humano?
- Sim - respondeu calmamente.
- Até você?
- Todos nós.
Ela afastou-se dele no sofá. Ele abriu uma gargalhada.
- Não tenha medo. Só me alimento de bandidos, assassinos e pessoas que merecem realmente morrer. Nunca matei nenhum inocente. O contrário da maioria de nós...
Mesmo assim ainda era assustadora a idéia de que ele se alimentava de humanos.
- Por que as pessoas não sabem sobre vocês? Se existem há tanto tempo, deveríamos ter conhecimento...
- Vocês sabem de nós. Só não acreditam. Você, por exemplo, conhece a palavra "vampiro", sabe o que representa, mas não acreditava que nós existíamos. Assim é com a maioria. Somos apenas lendas para vocês. Queremos que continue assim, mas Divarius pretende quebrar os pactos milenares e levar à tona nossos segredos para conquistar a humanidade.
Cada vez mais o nome desse vampiro fazia Bruna temê-lo terrivelmente. Resolveu mudar de assunto.
- Quem é Perine? É sua... namorada?
Calef gargalhou novamente. Ele tinha uma aparência jovem para toda a sua idade. Aparentava ter no máximo uns vinte e dois anos. Bruna notou que por baixo daquele visual gótico e melancólico havia uma alegria latente. E isso de certa forma a irritava e fascinava. Começava a simpatizar com o vampiro, mesmo que ele estivesse se divertindo com a ignorância dela quanto ao seu mundo.
- Não, não. Perine iria surtar se ouvisse isso.
Bruna não entendeu o motivo da graça, mas resolveu não perguntar. Depois de mais algum tempo, seu estômago roncou e ela corou a ver que Calef havia notado. Ao invés de rir dela, pareceu preocupado.
- Ah, claro! Desculpe, esqueci que vocês humanos precisam comer. Está quase anoitecendo e tudo o que você comeu foi aquela maçã...
Nem mesmo a maçã ela havia comido. Tinha jogado fora pouco depois que ele lhe dera. Ele andou pela cabana vasculhando alguns armários, à procura de algo comestível para ela. Aparentemente não estava tendo nenhum sucesso.
- Fique aqui, vou procurar alguma coisa.
- Não! - Bruna assustou-se com a emergência em sua própria voz. - Não me deixe sozinha...
- Não vou demorar - ele sorriu. - Não tem idéia do quanto nós somos velozes.
Ela não pôde contestar. Além do mais, estava morrendo de fome.
- Volto logo, prometo - ele deu um sorriso convalescente e saiu pela porta da cabana.
Bruna correu até a janela para ver ele se afastando. Ele movia-se de forma graciosa, com movimentos precisos. De repente, com uma velocidade impressionante, desapareceu no meio das árvores. Agora ela estava sozinha. O medo cresceu dentro dela. Pensou por um segundo em fugir, mas não tinha idéia de onde estava. Além do mais, por alguma razão confiava em Calef. O jovem vampiro parecia disposto a cuidar dela. Bruna sentou-se no sofá e ficou lá, encolhida.
A noite caiu rapidamente. Já fazia um bom tempo que Calef havia saído. Estava começando a preocupar-se - nem sabia mais se com ela ou com ele. Acendeu algumas velas que encontrara em um dos armários pela cabana, para evitar a tremenda escuridão.
Um forte barulho na parede da cabana a sobressaltou.
O que seria?
Um segundo barulho, mais forte e mais alto veio da parede na outra extremidade. Seu coração apertou.
- Calef? Calef, é você? - sua voz saía quase num fio. O vampiro gostava de se divertir às suas custas. Não duvidava que fosse ele tentando assustá-la.
Mas não houve resposta.
Havia um pé-de-cabra encostado perto do fogareiro. Ele correu para pegá-lo.
Um vulto passou pela porta. Pôde reconhecer o rosto do garoto que estava ao seu lado no ônibus. Ele sorriu ao vê-la.
- Finalmente encontramos você!
Ela se lembrou de como Calef os chamara. Desmortos. Segurou o pé-de-cabra com mais força.
- Vem comigo, garota! Está todo mundo esperando por você!
Um flash se passou pela mente dela. E se tudo o que Calef havia lhe contado fosse mentira? E se não existisse nenhum desmorto? Tudo o que ela sabia fora ele quem lhe contara. E se ele tivesse más intenções com ela?
- Não se lembra de mim? Não vou te machucar!
- Onde estão os outros? - ela sussurrou.
- Esperando por nós - ele abriu um sorriso. - Graças a Deus te encontramos! - ele estendeu a mão para que ela se aproximasse.
Desmortos, Vampiros... Como podia ter acreditado naquelas coisas ridículas? Calef devia ser só um psicopata cheio de truques e de uma lábia muito convincente. Ver aquele personagem real em sua frente, dizendo que tudo ia ficar bem, fazia-a pensar que Divarius e seus planos conspiratórios não passavam de idiotice.
Andou até ele. Segurou sua mão.
- Vamos. Tudo vai ficar bem - ele prometeu com um sorriso tranqüilizador.
Ela deu um sorriso de alívio. Em breve estaria em casa. Arrepiou-se ao lembrar que passara tanto tempo com um psicótico estranho - e pior, acreditara em seus delírios. Saíram da cabana e Bruna pôde ver que todos os passageiros do ônibus a estavam esperando do lado de fora. Todos olharam para ela ao mesmo tempo.
Mas havia algo errado.
Os olhares de todos... Não eram de satisfação por reencontrá-la. Eram impassíveis, indiferentes. Olhou lentamente para o lado, para o garoto que segurava seu braço. Ele apertou mais ainda, com um sorriso frio. Um calafrio lambeu sua espinha. Ela arregalou os olhos ao olhar novamente para os outros. Todos estavam sorrindo de forma bizarra, quase distorcida.
Bruna juntou todas as suas forças para soltar-se do braço do garoto. O pé-de-cabra ainda estava em sua mão. O garoto avançou.
Um golpe.
Deu para ouvir o estralar dos ossos do rosto dele. Seu corpo cambaleou para o lado, quase caindo. Ele se recompôs, enquanto ela recuava assustada. O rosto dele agora estava deformado, começando lentamente a se decompor em uma forma putrefata, como a de um defunto. Seu olhar estava raivoso, fuzilando-a. Bruna olhou para os outros. Todos os seus rostos tinha se convertido em caretas disformes; todos iam em sua direção... O garoto que acertara com o pé-de-cabra deu um grito odioso, fazendo seu maxilar descer um palmo de distância da parte superior da boca.
Bruna virou-se, e começou a correr. Correu como nunca antes em sua vida, motivada por um pavor terrível. Corria por sua vida, corria por Calef. Como pudera não acreditar nele? Como pudera ser tão idiota? O bosque estava mergulhado na escuridão e ela podia ouvir os passos correndo atrás dela. Tropeçou várias vezes, mas teve de se recompor rapidamente. Alcançou uma ribanceira, escondendo-se atrás de uma grande pedra ao lado de uma árvore.
Silêncio.
Seus ouvidos só captavam pequenos ruídos de animais. Teria despistado os desmortos? Ficou ali por alguns minutos, prendendo a respiração ao máximo, temendo que ouvissem as batidas de seu coração alucinado.
Ruído na escuridão.
Arregalou os olhos, imaginando ver alguma daquelas criaturas novamente. Apertou o pé-de-cabra em suas mãos. Dois pontos vermelhos brilharam à sua frente, a poucos centímetros do chão. Os dois pontinhos subiram em um tronco. Notando bem, não era um vermelho, mas sim um alaranjado forte. A luz da lua que escapava pelas copas das árvores iluminou o dono dos pontos luminosos.
Um gato.
Bruna suspirou aliviada. Era um lindo gato - ou gata - de pêlo cinza e branco. Estava com os olhos brilhantes fixos nos dela. Por um instante, uma estranha onda de paz invadiu-a, como se fosse possível se acalmar em uma situação daquelas. Mas de uma forma impossivelmente tranqüila, ela relaxou.
O gato desviou o olhar, fixando os olhos de fogo em algum ponto acima de Bruna. Eriçou os pêlos em posição de ataque. Bruna olhou para trás.
Vários vultos aproximavam-se lentamente entre as árvores.
Bruna levantou-se, mas como se estivesse drogada, não conseguia entrar em pânico. Era como se algo lhe dissesse de alguma maneira que tudo estaria bem.
Então aconteceu.
O gato pulou da fraca luz que o iluminava e, das sombras para onde havia saltado, levantou-se uma forma humana - uma mulher, uma linda mulher - vestida de preto, como Calef, só que de uma forma mais delicada. Havia alguns detalhes em verde escuro em sua roupa, como algumas tiras decorativas. Seu longo cabelo cinza esvoaçou assim que ficou completamente em pé.
Aquela mulher... era a gata que acabara de pular?
Ela olhou para trás, com um olhar calmo. Seus olhos eram da cor dos da gata, vivos como uma chama.
- Não se preocupe, eles não vão machucar você.
Bruna nada disse. Observou a jovem linda avançar na direção dos desmortos...
... arreganhando antes a boca, fazendo duas enormes presas descerem de onde antes haviam seus dois caninos.


(continua...)

 

Escrito por Dark Gero às 19h21
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05/01/2009


Lugar Nenhum Parte III (por Dark Gero)

 

Por alguns segundos, Gil ficou ali, parada, incapaz de se mover, repentinamente tomada por aquele desespero devastador. Ele estava observando-a. De outra maneira, como saberia que ela havia retirado os óculos?
Sentou-se em uma cadeira, ainda tremendo, Não havia nenhuma janela aberta ou nenhum contato com o lado de fora da casa. Então como? Uma idéia passou por sua cabeça, e a fez ficar ainda mais paranóica. E se houvessem câmeras espalhadas por ali? Santo Deus, há quanto tempo ela estava sendo vigiada? Tinha que pensar em algo logo. Se ele podia vê-la, então não só sua amiga e seu namorado iriam morrer caso ela tentasse algo, mas sua família inteira...
Pense! Pense! Pense! Ela já havia recolocado os óculos e batia na testa com as mãos. Não podia ficar ali, parada. Tinha que pensar em algo. O estranho que lhe ligara não dissera o nome, nem o que ela deveria fazer. Apenas o que não deveria. Ficou andando pela casa, com a terrível impressão de estar sendo observada.
O tempo estava passando...
Não agüentou nem mais um segundo. Foi ligar o computador, mesmo correndo o risco de estar pondo todos em perigo. Não tinha tempo para pensar na razão daquilo tudo estar acontecendo. Abriu o MSN.
Havia várias pessoas online, menos Alex e Dark Gero. Ele se perguntava se não era burrice ir contra as ordens do seqüestrador. Ficou olhando para a tela, ansiosa.
Dark Gero apareceu online. Ela sentiu um aperto no peito.
─ Gil!
─ Por favor, me diz o que ta acontecendo!
─ Vc caiu na armadilha dele, Gil!
─ Ele quem?
─ Alex.
─ Ele disse o mesmo de vc! Naum sei em quem confiar!
─ Vc me conhece há um bom tempo. Eu nunca faria nada pra te machucar.
─ O que é tudo isso, heim? O que vcs pretendem? Pq estão fazendo isso comigo?
─ Nunca te fiz nada. Escuta, Gil. É algo muito além da sua compreensão o que está acontecendo. Talvez a verdade não seja de muita ajuda nesse momento.
─ Eu quero a verdade! ─ ela colocou em letras grandes.
Houve uma pausa. Ela pediu a atenção dele.
─ É tudo muito assustador. Não quero mentir pra vc.
─ Por favor, diz!
─ Eu não te conheci por acaso, Gil. Meu intuito desde que te adicionei foi te proteger. Eu tinha que me aproximar de vc de alguma maneira.
─ Do que está falando? Proteger do Alex?
─ O Alex está sendo usado. Vc tem algo que agrada a eles.
─ Eles quem?
─ Vc ainda tem o vídeo com vc?
─ Tenho sim.
─ Assista ele de novo.
─ Pra quê? Pra me martirizar?
─ Assista! Agora, por favor!
Ela decidiu obedecer. Talvez ele fosse apontar algo que ela não havia notado. Colocou o CD no drive do computador. Na tela mostrava sua amiga no banco de uma praça, como havia visto antes. Seu namorado então aparecia...
Ela minimizou a janela do vídeo. Escreveu para Dark Gero.
─ O que vc quer que eu veja?
─ Olhe direito... ─ ele escreveu.
Ela maximizou a janela. Voltou um pouco o vídeo.
Arregalou os olhos.
Não, não poderia estar ficando louca. Depois que seu namorado sentava no banco, eles ficaram conversando por um tempo, então ele se levantava dando um beijo leve no rosto dela. Ela tinha certeza que antes vira eles beijando-se como dois apaixonados, beijo de língua. O que estava acontecendo? Alguém trocara o CD?
─ O que significa isso? ─ ela escreveu confusa para Dark Gero. ─ Eu vi, não to ficando louca! Eles se beijaram!
─ Vc viu o que ele quis que vc visse ─ escreveu ele. ─ Agora poderia ver a verdade.
Ela não acreditava. Voltou o vídeo mais uma vez... E mais outra. A mesma cena. Não havia nada demais naquilo. Não era possível! Gil tinha certeza do que vira. Voltou pela ultima vez.
─ O que vcs querem? Pq estão me perseguindo? Pq vc disse que tinha que me proteger?
─ Não se preocupe. Sua família vai ficar bem, vc vai ficar bem. Eu prometo! Onde é sua casa? Por favor, me dê o endereço!
Gil sentiu um calafrio percorrer a espinha.
─ Eu nunca mencionei que minha família estava em perigo! Como sabe?
A ansiedade tomou conta dela. Talvez estivesse falando com o provável seqüestrador. Ouviu o barulho de chuva sobre o telhado.
─ Por que eu sei onde eles estão.
─ Onde!?
A janela do vídeo maximizou-se sozinha. Ela tentou voltar a minimizar, mas não estava respondendo. Mostrou novamente sua amiga na praça. Tentou apertar o "X" do canto superior da página, mas não respondia. Mostrou seu namorado aparecendo. E desta vez algo bizarro aconteceu...
Ao invés de ocorrer o que havia se repetido tantas vezes no vídeo, (?) e (?) olharam estranhamente para a câmera, ficando ali, parados, encarando Gil.
Ela não conseguiu conter o grito.
As luzes apagaram-se.
O telefone tocou estridentemente. Ela ligou o celular, apavorada, para que a luz dele iluminasse o cômodo mergulhado nas trevas. Andou quase às cegas até a sala, apalpando as paredes com suas mãos trêmulas. Tinha certeza de quem estava ligando. Seria o seqüestrador, dizendo que violara as regras e que por isso, sua família iria morrer. Sua mente estava entorpecida com toda aquela série de absurdos. Perguntou-se se não estava enlouquecendo...
─ Alô! ─ disse num grito de raiva e medo ao mesmo tempo.
─ Fala baixo, menina!
A voz irritada do outro lado da linha fez uma corrente de alívio dominar Gil. Era a voz de seu...
─ Pai! ─ ela disse positivamente surpresa.
─ Que alarde é esse, menina? Já chegou em casa?
─ Sim...
─ Eu e sua mãe vamos chegar mais tarde um pouco hoje. Resolvemos sair um pouco. Se seu irmão chegar, diz pra ele não sair que quero ter uma conversa com ele.
─ Tá, pai... Eu aviso... ─ Desligou. Gil não poderia estar mais aliviada. Não passara de um trote de mau gosto, um blefe. Mas como o cara que ligara sabia que ela havia tirado os óculos? E A bizarrice que acontecera há pouco com o vídeo? E (?) e (?)?
Ouviu um barulho atrás de si. Virou-se assustada, tropeçando em alguma coisa, caindo no chão. A luz do celular iluminou o fio do telefone que acabara de atender.
Não! Não pode ser!
O fio do telefone estava fora dele. Não tinha como ter atendido... A chuva caía fortemente lá fora agora. Trovões gritavam no céu, como se estivessem furiosos. O barulho se repetiu próximo a ela. Gil apontou o celular para a direção do ruído.
─ Quem está aí?
Não havia nada.
Gil levantou-se, perdida no limiar da sanidade e da loucura. Girou o braço ao seu redor, tentando iluminar qualquer coisa estranha. Seu coração batia acelerado como nunca. Aquilo era além da imaginação, não poderia estar acontecendo. Tinha que ser um sonho. Tinha que...
─ Vamos dar um passeio, minha linda ─ uma voz conhecida disse repentinamente atrás dela.
Antes que pudesse ter qualquer reação, sentiu uma forte pancada na nuca.
Havia perdido os sentidos quando seu corpo caiu no chão.

(continua...)

 

Escrito por Dark Gero às 19h35
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04/01/2009


Lugar Nenhum Parte II (por Dark Gero)

─ O que houve, Gil? Você está pálida!
Gil estava em pânico. Não sabia o que fazer. A assustadora ligação que recebera há pouco fizera com que Alex à sua frente lhe parecesse um monstro. Mas ela não podia deixar transparecer. E se seu namorado e sua amiga estivessem mesmo em perigo? Ela estaria em sérios apuros naquele exato momento. Tentou se controlar...
─ Nada. Estava passando mal. Desculpa, mas eu tenho que ir agora...
─ Ei, espera um pouco ─ disse Alex com uma expressão estranhamente sincera. ─ Você está bem? Posso te levar ao hospital...
─ Não, não, eu apenas tenho que ir... ─ era impossível ocultar o medo que ela sentia. Virou-se instintivamente, quase pronta para correr.
Ele segurou seu braço.
Gil Arrepiou-se.
─ O que está havendo, Gil? Você não veio aqui para que eu te explicasse aquele vídeo? Eu tenho que falar com você urgente! Muita coisa tem que ser explicada...
─ Por favor, me larga ─ ela estava prestes a gritar. Nunca sentira tanto medo na vida.
─ Ele te ligou, não foi?
Gil paralisou-se. Seu coração estava a mil. Ele sabia de tudo? O que estava havendo? Súbito, uma onda de raiva tomou conta dela. Eram pessoas que amava que estavam em perigo!
─ Onde eles estão?
─ Vamos para outro lugar.
─ Não vou a lugar algum com você.
─ Fale baixo, por favor. Só quero te explicar tudo ─ ele falou quase cochichando, temendo chamar a atenção das pessoas. ─ Gil, é tudo muito complicado, mas estou disposto a esclarecer cada dúvida sua. Só ouça minhas palavras: Não confie nesse cara que te ligou. Ele vai fazer de tudo para conseguir o que quer...
Os olhos de Gil se encheram d'água. Ela não poderia estar mais confusa.
─ Por favor, me diz o que está acontecendo... Eu não sei mais em quem confiar...
Ele passou a mão pelos cabelos dela, tentando acalmá-la.
─ Quem te mostrou o rosto, hã? Pode confiar em mim... Olha, vamos sentar em um banco lá fora. Juro que te conto...
─ Não, fale aqui mesmo! ─ ela desafiou, enfrentando o próprio medo.
Ele pareceu hesitar. Vasculhou ao redor com seus olhos azuis e focou-os em Gil. Falou com uma seriedade impressionante:
─ O vídeo que te enviei não é falso. Seu namorado e sua amiga realmente se beijaram...
─ Eu não acredito! ─ a ira tomou conta dela. Ela preferia a versão de que o vídeo fora falsificado. Nesse caso, estava em perigo estando ali com Alex.
─ Me escuta. Eles foram forçados a fazerem aquilo.
─ O... O quê...?
Uma senhora vestida de verde que ia passando por ai ficou olhando fixamente para Gil, com certa estranheza.
─ Estamos chamando muito a atenção aqui, Gil. Por favor, vamos pra fora.
─ O que você quis dizer com "foram forçados"? Você os forçou?
─ Não. Claro que não. O cara que te ligou. Tudo faz parte do plano dele.
─ Onde eles estão? ─ as lágrimas rolavam de seu rosto.
Um homem de que ia passando por ali encostou próximo aos dois.
─ Está tudo bem? ─ falou dirigindo-se a Gil.
Ela não podia vacilar. Estragaria tudo, poria em perigo a vida do namorado e da amiga, mas aquela era sua chance.
─ Não deixa ele me seguir! ─ dizendo isso, disparou correndo sem olhar para trás.
Dobrou uma esquina, indo para a parte do cinema. Adentrou a multidão, mas sem prestar atenção a ninguém. As pessoas olhavam para ela sem entender o que estava acontecendo, mas ninguém a parou. Saiu do shopping paranóica, olhando para trás o tempo todo. Nunca passara por nada parecido em toda a sua vida! Continuou correndo, entrando em uma rua escura, sem lembrar-se do quanto temia passar por ali sozinha. Só queria ir para o mais longe possível do shopping...
Dez minutos depois estava em uma parada de ônibus. Havia outras pelo caminho, mas ela queria se afastar ao máximo. Escondeu-se atrás de uma árvore, enquanto seu ônibus não vinha.
Esperou cerca de vinte minutos antes de seu ônibus aparecer.
Ao pisar no primeiro degrau, uma onda de alívio tomou conta dela. Estava a salvo.
Mas quanto a (?) e (?)?


● ● ●

Desceu do ônibus um tanto zonza. Estava com uma forte dor de cabeça. Durante sua vida inteira nunca passara por nenhuma situação realmente perigosa. Naquele momento um turbilhão de emoções explodia em seu peito. Nunca estivera tão confusa. Nunca sentira tanto medo. Suas pernas estavam bambas.
Chegou em casa e estranhou que as luzes estivessem apagadas. Para onde seus pais e seu irmão tinham ido? Pegou sua própria chave e entrou. Trancou a porta e foi direto para seu quarto. Jogou-se na cama, entregando-se às lágrimas.
Como se saísse de um transe, pegou o celular e discou o número de sua amiga. Desistiu depois do décimo toque. Em seguida discou o de seu namorado.
Um toque...
... dois toques...
... três toques...
... quatro toques...
Atenderam!
─ Alô!? (?)?
Não houve resposta. Quem estava do outro lado da linha não falava nada.
─ (?)! (?)!─ ela insistiu chamando o nome do namorado. ─ Você está bem? Onde você está?
Ela teve a nítida impressão de ter ouvido uma risada antes da ligação cair.
Arrepiou-se. Tinha que entrar em contato com os dois logo ou chamaria a polícia. Não sabia se fizera bem em correr de Alex no Shopping ou se perdera a oportunidade de descobrir a verdade. Conhecia muito bem sua melhor amiga, ela nunca a trairia. A versão de que foram forçados a fazer aquele vídeo era mais palpável. Mas por que fariam aquilo com ela? Qual a finalidade de quem quer que fosse com aquilo tudo? Assustar? Não, não era uma simples brincadeira. Então por quê? Por quê?
Tremeu de susto com o toque do telefone da sala. Quem seria? Seus pais ou seu irmão... ou quem sabe (?) ou (?)...
Foi até a sala atender.
─ Alô?
─ Se desligar eles morrem.
Gil gelou por inteiro. Aquela voz abafada por um pano, talvez, a paralisara completamente.
─ Quem... Quem é...?
─ Se avisar a alguém, ligar para mais alguém ou simplesmente agir de maneira que acarrete perguntas, todos eles morrem.
O pânico voltou a contagiar Gil. Ela mal conseguia segurar o telefone. Como ele conseguira seu número? Teve o ímpeto de desligar, mas não o fez.
─ Não entre no MSN. Qualquer contato exterior e estará assinando a sentença de morte deles.
Gil tirou os óculos, deixando as lágrimas de desespero caírem.
─ Por quê!? Por que isso? ─ ela gritou engasgada no próprio choro.
As palavras seguintes dele doparam de pavor a alma da pobre garota:
─ Coloque os óculos, querida. Fica mais bonita com eles... ─ desligaram.
Gil deixou o fone cair, pois sua mão trêmula era incapaz de segurá-lo.

(continua...)

 

Escrito por Dark Gero às 20h15
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Melodia Parte II (por Dark Gero)

 

- Quem... Quem é você? - a voz de Bruna era praticamente um murmúrio. Encostou-se em uma árvore de costas, com o corpo imóvel, impossibilitado de agir.
- Não se assuste tanto, garota. Não sou seu inimigo... - o estranho falava com uma voz tranqüila, jovial. Era um homem alto, bonito. Tinha cabelos curtos e lisos, de uma cor escura que não soube identificar. Estava maquiado com tinta preta, com um visual gótico que combinava com sua roupa totalmente preta, incluindo um sobretudo obscuro. Tinha dois pequenos cintos presos a seu braço. Seus olhos não estavam mais vermelhos; tinham um castanho claro normal.
- Como sabe meu nome? - ela conseguiu perguntar, lembrando que ele a chamara pelo nome há poucos segundos atrás.
- Eu disse seu nome? - seu tom era divertido.
- Você... Você falou, sim... - Bruna não tinha a mínima intenção de discutir com aquele estranho. Não sabia nada sobre ele, e devido às circunstâncias, tinha motivos para acreditar que ele seria perigoso. Seus olhos voltaram a se encherem d'água. - Por favor, não me machuque...
- Não vou te machucar. Perdão por te assustar. Só queria te afastar do perigo - ele ficara sério de repente.
- Perigo...?
- O que você acha que houve com os outros passageiros? Não foi uma abdução nem um descuido te deixando lá sozinha.
Bruna percebeu que ele falava exatamente suas teorias. Estremeceu.
- O que houve com eles? - sua voz ainda saía sem segurança, tremulamente.
- O que eu não quero que aconteça com você.
Ela hesitou por um momento, com medo de fazer sua próxima pergunta:
- O que... você vai fazer comigo?
Ele deu um sorriso malicioso.
- Não pode voltar para o ônibus. A propósito, meu nome é Calef.
- Por favor, o que vai fazer comigo? - ela falou com mais força, superando o medo que a impedia de se mover.
- Te levar para um lugar seguro.
- O lugar seguro para mim é o ônibus. Alguém vai voltar pra me buscar...
- Se voltar para o ônibus vai morrer. Eles vão perceber que faltou um.
- Eles? De quem você está falando? Do que você está falando?
Ele levantou a cabeça subitamente, movendo o nariz como se estivesse farejando algo. Seus olhos voltaram a ficar vermelhos.
- Vamos, eles estão por perto - ele pegou no braço dela.
- Vamos pra onde? Pra onde está me levando?
- Cale-se, garota. Eles vão te ouvir.
Bruna soltou o braço e conseguiu correr. Estava tudo muito escuro, mas a luz da lua atravessava as brechas deixadas pelas copas das árvores. Ela esbarrou em algo. Dessa vez não era uma árvore. Era Calef. Segurou o pescoço dele, impedindo-a de falar.
- Olha, garotinha. Não ligo a mínima pra sua vida, mas se eles te pegarem terei sérios problemas - ele sussurrava, mas sua voz era feroz. Bruna sentiu o corpo desfalecer. Começou a perder os sentidos.
Mergulhou na escuridão.


A luz do sol fez a vista de bruna doer quando ela abriu os olhos. Estava sentada, encostada em uma grande pedra.
- Acordou? - a voz atrás dela assustou-a.
Calef rodeou a rocha, aparecendo em sua frente. Só então ela percebeu o quanto ele era bonito. E pálido. Ele comia uma maçã. Jogou outra para Bruna, que agarrou por reflexo. Só então ela lembrou-se do quanto estava assustada.
- Seu café da manhã.
- Eu quero ir embora! - ela conseguiu demonstrar uma ponta de irritação.
- Você vai aonde eu for. Não é uma negociação.
- E se eu me negar a ir? - ela atreveu-se a perguntar, embora não se sentisse corajosa o bastante.
- Então vou ter o trabalho de te carregar no ombro novamente.
Ela percebeu que não tinha escolha. Sua mente estava embaralhada com tantas perguntas que tinha vontade de fazer, mas sua curiosidade nem se comparava ao seu medo. Estava pensando desesperadamente em uma maneira de fugir.
- Não tem como fugir de mim.
Ela assustou-se por ele adivinhar o que ela estava pensando. Ele... estava lendo sua mente?
- Sim - ele falou mordendo a maçã. - Estou lendo seus pensamentos.
Ela tremeu.
- Como?
- Você pensa, eu escuto. Simples.
- Isso é impossível... O... O que você é?
Ele agachou-se perto dela, olhando-a nos olhos.
- Um vampiro.
Uma série de sensações tomou conta de bruna. Ela por um instante achou que ia desmaiar. Os olhos vermelhos, a velocidade...
- Vampiro? - sua voz saíra num fio.
- Isso. Já deve ter ouvido falar - ele olhou para as nuvens.
Claro que ouvira. Mas sempre achou que não passava de uma simples história de terror. Um personagem lendário, nada mais. Calef notou a expressão assombrada de Bruna. Parecia divertir-se com isso.
- Nós andamos ao sol sem problemas, mas isso é problemático. A luz suga nossas forças. Por isso a maioria de nós dorme ao dia e caça à noite. Infelizmente tenho que vigiar você até que esteja segura, por isso não posso me dar ao luxo de dormir - ele olhou para ela novamente. Ela estava encolhida, chorando assustada.
- Eu não vou te machucar. Não eu. Os responsáveis pelo que aconteceu no ônibus estão interessados em você, principalmente o líder deles, Divarius.
- Por que eu? - ela sussurrou às lágrimas.
- Seu sangue, sua pureza. Ele quer que seja a esposa dele, que dê cria a novas criaturas. Não acontece como nas histórias, em que uma mordida te transforma em vampiro. A mordida serve apenas para alimentar. Na verdade, alguns de nós precisam de um certo tipo de sangue para se reproduzir, e a dona do sangue tem que ser pura... Você tem o sangue ideal para Divarius. Você é rara. Tenho que impedir que ele coloque as mãos em você.
Ela enxugou as lágrimas, ainda tentando digerir aquelas informações fantásticas, surreais.
- Mas por que levaram todos, menos eu do ônibus, sendo que ele queria a mim?
- Você não entendeu. Eles não levaram ninguém do ônibus.
- Como assim? - ela estava mais confusa do que nunca.
- Você conhecia algum passageiro?
- Não... exceto um, que eu via raramente, o que estava no assento do lado do meu.
- Você não estranhou isso? Uma excursão repentina, em que nenhum conhecido seu participa?
Bruna empalideceu. Sentiu sua dor de cabeça piorar ainda mais.
Calef estreitou os olhos, fitando-a seriamente.
- Você era a única humana no ônibus, Bruna.

(Continua...)

 

Escrito por Dark Gero às 20h06
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03/01/2009


Melodia (por Dark Gero)

 

Bruna acordou no meio da noite novamente, notando que todos no ônibus, exceto o motorista, ainda estavam dormindo. Sentia uma leve dor de cabeça que a acompanhava desde o início da viagem. Esfregou as têmporas vagarosamente, na tentativa de amenizar aquela dorzinha irritante. Estava odiando aquela excursão. Principalmente pelo fato de não ter não conhecer ninguém ali. Aquela excursão escolar deveria ser divertida, se por acaso alguma de suas amigas estivesse nela. Fora escolhida por sorteio, assim como todos os outros estudantes que dormiam no ônibus.
O garoto no assento ao lado era um loirinho que ela vira poucas vezes pela escola. Não puxara assunto com ele, embora ele tivesse tentado no início da viagem. Bruna estava de certa forma irritada, sem saber pelo quê ou por quem. Talvez fosse apenas frustração. Não saberia explicar.
Olhou para o celular. Eram mais de onze horas da noite. Resolveu dormir novamente para que a viagem terminasse logo. Olhou para fora da janela, vendo aquela paisagem sombria passar em alta velocidade por ela. Encostou-se novamente em seu assento, fechando os olhos. Levou vinte minutos para conseguir pegar no sono.


Abriu os olhos.
O ônibus estava parado. O assento ao seu lado estava vazio. O garoto devia ter ido ao banheiro, ou... Ergueu-se, olhando ao redor. Arregalou os olhos, espantada.
Todos os assentos estavam vazios.
Teriam chegado a alguma parada? Olhou pela janela, nervosa, notando que estava na estrada de terra, próximo à escura vegetação. O que estava acontecendo? O ônibus furara o pneu ou algo do tipo? Correu para a porta do ônibus, vendo em pânico que não havia ninguém do lado de fora. O ônibus estava ao lado de uma ribanceira, no meio do nada. Não havia sinal de civilização por perto. Santo Deus! Onde estou?, ela desesperou-se, sem ter idéia do que poderia ter acontecido. O ônibus dera problema e eles pegaram algum outro? Mas por que ninguém a acordara? Aquilo era absurdo demais! Experimentou a sensação de estar sonhando, mas seu medo era grande o bastante para prová-la que estava muito bem acordada.
Gritou. Chamava por qualquer pessoa. Estava em pânico. Aquilo era surreal, impossível! Queria ouvir a voz de outra pessoa, qualquer uma, só para saber que não estava sozinha. Uma série de explicações absurdas desenhava-se em sua mente: Todos escondidos para dar-lhe um susto idiota, ou abdução... Não aceitava estar largada no meio do nada, perdida naquela escuridão assombrosa das árvores!
O celular, claro! Tentou ligar para sua mãe, mas não havia sinal. Tentou vários outros números.
Nada.
Começou a chorar. Nunca sentira tanto medo em sua vida, embora não tivesse aceitado por completo a idéia de ter sido abandonada ali... ou coisa pior! O silêncio era profundo, assustador. Parou de chorar ao analisar suas opções. Alguém teria de voltar para pegar o ônibus, então ela só tinha que ficar lá dentro até que a apanhassem. Apanhassem... essa palavra pareceu desagradável para ela. Ficar dentro de um ônibus vazio no meio da noite, perdida, era suficientemente desesperador.
Gritou novamente, mais alto, a plenos pulmões...
Mas parou. E se atraísse o oposto do que desejava?
Seu coração disparou de repente, tirando-a do tranze em que se encontrava.
Ouviu um som agradável, de uma gaita, sendo tocada divinamente. Havia alguém por perto? Seria um dos passageiros? Talvez tivessem acampado, ou... Balançou a cabeça, dando-se conta do quão aquelas suas idéias estavam sendo ridículas.
O som vinha do meio das árvores. Havia uma trilha na direção da linda melodia. Gritou por socorro, mas quem quer que estivesse tocando, parecia não ouvir. Seguiu um impulso que não pôde controlar.
Adentrou a trilha.
Com o auxílio da luz de seu celular, Bruna seguia entre aquelas árvores mergulhadas nas sombras. O que estava fazendo ao certo? Por que estava seguindo aquela melodia? As respostas não vinham até ela, apenas aquele estranho impulso. O som divinamente tocado pela gaita parecia estar mais próximo...
Mas era impossível, pois ele...
...vinha de cima...
Bruna levantou a cabeça tentando inutilmente iluminar com o celular as sombras sobre ela. Alguém estava tocando a gaita sobre as árvores.
- Oi? Quem está aí?
Em sua sã consciência, Bruna perguntaria-se o que faria alguém tocar gaita na mais profunda escuridão em árvores de mais de três metros de altura. Mas ela nem de longe estava sã; não em sua situação.
A melodia cessou. O silêncio devorou a escuridão novamente.
- Oi... - disse a voz sobre ela. Era grave, embora fosse carregada de um tom aveludado.
- Que-quem... - Bruna tremia terrivelmente, tanto, que não conseguia focar a luz em ponto algum. A espécie de hipnose causada pela gaita acabara, pois ela voltara a entrar em pânico, apavorada com sua companhia misteriosa.
Ouviu o som de algo caindo pesadamente no chão a poucos metros dela. Ele pulara de cima... Ela pôde divisar com horror naquele ponto um par brilhante de olhos vermelhos fitando-a fixamente, com admirável satisfação.
Bruna dessa vez seguira um outro instinto, o de sobrevivência... Saiu correndo às cegas entre as árvores, de vez em quando esbarrando violentamente em alguma e caindo no chão. Ouvia passos lentos atrás dela. Fechou os olhos com forças, sentindo a dor lancinante causada pelo impacto com a árvore.
Ela abriu os olhos, ainda entorpecida pelo que havia acabado de presenciar. Talvez fosse apenas um sonho. Sim... Aquilo não podia ser real.
Levantou-se ainda zonza, sentindo a dor de cabeça piorar.
Virou-se ao sentir a respiração em sua nuca.
Deparou-se novamente com aquele sinistro par de olhos vermelhos, a poucos centímetros de seu rosto.
- Olá, Bruna - ele falou com um sorriso maldoso nos lábios.

 

(Continua...)

 

 

Escrito por Dark Gero às 19h54
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21/10/2008


Lugar Nenhum (Dark Gero)

Esse conto foi feito especialmente em homenagem a uma linda garota virtual. Espero que goste.



LUGAR
NENHUM
(Dark Gero)


Ela estava nervosa. Tentava disfarçar, mas era difícil fazer as mãos pararem de tremer. Suas pernas também estavam um pouco bambas, tanto que ela sentou-se num banco próximo. A todo instante perguntava-se o que estava fazendo ali. E toda vez que fazia isso sua vontade era de sair correndo. Olhava ao redor inquieta, mesmo tentando se policiar para não parecer uma boba ansiosa. E se ele estivesse de longe olhando para ela naquele momento? Rindo, talvez.
Levantou-se, só de imaginar essa suposição. Havia muitas pessoas no shopping naquela noite; ele podia estar em qualquer lugar. Olhou para o celular. Ele estava quinze minutos atrasado! E se ele tivesse entendido mal o lugar do encontro? Pior... e se ele estivesse brincando com a cara dela? Ela arrepiou-se só de imaginar. Um arrepio de raiva. Claro! Podia ser isso também... Ele apostara com ela que iria conquistá-la e fazê-la esquecer seu namorado... Uma sensação estranha tomou conta dela, embrulhando seu estômago.
Não faz isso comigo... Não faz isso comigo...
Resolveu relaxar. Respirou fundo, tentando se controlar. Ele não seria tão cretino assim. Eles só se conheciam virtualmente, mas pelas suas conversas, dava para traçar o perfil do caráter dele. Ou não...
Balançou a cabeça.
Havia várias outras possibilidades. Podia ter se atrasado com o transporte. Sofrido um acidente! Droga! Por que ela estava daquele jeito? Ela sempre fora forte, inabalável. Geralmente, teria ido embora nos primeiros cinco minutos de atraso. Se o babaca se atrasasse, azar o dele. Por que esse imbecíl fazia-a se sentir tão vulnerável?
Depois de dez minutos ela se levantou, furiosa. Sentia-se a garota mais idiota do mundo. Brigara com seu namorado, marcara um encontro com aquele babaca e ele devia estar em casa, sorrindo dela. Ia andando vermelha de ódio. Estava tão cega que nem percebeu o garoto que vinha em sua direção. Esbarrou nele.
─ Oh, desculpe! Eu...
─ Não, não, eu é quem esbarrei em você ─ ele disse com um sorriso no rosto. Era alto, quase loiro. Tinha olhos azuis marcantes. ─ Você tá bem? Parece...
─ Eu estou ótima. Tenho que ir...
Ele segurou levemente seu braço.
─ Eu sei que não é da minha conta, mas você parece nervosa demais, garota. Olha, alguém fez isso com você? ─ ele olhou profunda e seriamente nos olhos dela.
─ Não. Já disse que não é nada.
─ Então não vai negar tomar um sorvete comigo, vai? Não está acompanhada, está? ─ ele deu um sorriso largo, irresistível.
Acompanhada... Sentiu mais raiva ainda daquele idiota com que marcara o encontro. Aceitaria sim o sorvete, pelo menos sua noite não seria em vão.
─ Talvez eu esteja um pouco nervosinha sim. Um sorvete cairia bem ─ ela sorriu.
Ele retribuiu o sorriso com satisfação.
─ Prazer, Senhorita Nervosinha. Meu nome é Alex.
─ Pode me chamar de Gil.


● ● ●

Alex era incrível! Fizera-a esquecer totalmente a frustração que tomara conta dela. Ele era inteligente, engraçado, bonito... Deram uma volta pelo shopping depois de tomar o sorvete, totalmente descontraídos. Ele a fazia se sentir estranhamente à vontade, como se o conhecesse há anos. Não falou muito dele; na verdade estava interessado em ouvi-la, o que é raríssimo em um homem com as qualidades que ele tinha. Ela omitiu o encontro marcado pela internet. Não queria que ele pensasse que ela era uma boba por ter caído naquela. Devia ter seguido sua intuição e não ter ido, mas seguira seus instintos...
Estava ficando tarde. Eram quase nove da noite.
─ Tenho de ir, Alex.
─ Mas já? ─ ele fez uma expressão doce de desapontamento.
─ Infelizmente.
─ Posso te deixar em casa, estou de moto.
Ela pensou rápido. Mal o conhecia, não podia confiar logo de cara.
─ Obrigada, mas acho melhor não.
─ Te acompanho até a parada, então...
─ Tudo bem ─ ela sorriu.
Enquanto andavam para a saída do shopping, ele passou a mão sobre os ombros dela. Gil sentiu um certo desconforto e ao mesmo tempo um arrepio de satisfação. Estava se sentindo segura. Ainda conversaram na parada de ônibus, quando Alex tocou no assunto:
─ Você tem namorado?
─ Tenho.
─ E onde está ele, deixando você passear sozinha no shopping?
─ Na verdade eu estava com umas amigas e elas foram embora ─ Gil era péssima mentindo. Deixou transparecer.
─ Você é linda, sabia? ─ ele cortou de repente.
─ Obrigada ─ ela ficou sem jeito.
─ Eu sei que ele te deu um bolo.
Gil ficou branca.
─ Como...?
─ Seu namorado, te deu um bolo. Por isso você estava tão nervosa e resolveu aceitar meu convite. Mas não se preocupe, eu só queria ver você se sentindo melhor. É um desperdício uma garota tão linda escondendo seu belo sorriso atrás do desapontamento.
Gil sorriu. De certa forma ele a pegara. Pelo menos não acertara no fato de ela estar esperando outra pessoa, não o namorado. Mas estava terrivelmente sem jeito por de certa forma ter usado Alex e ele ter consciência disso.
─ Você tem Orkut, MSN?
─ Tenho sim.
Os dois trocaram contatos. Gil viu seu ônibus vindo.
─ Meu ôni...
Alex não a deixou completar a frase. Ele a beijou de repente, deixando-a paralisada.
─ Te vejo por aí, garota.
Gil estava sem ação. Apenas sorriu, assentindo com a cabeça.
Entrou no ônibus.


● ● ●

Ela entrou no MSN depois de passar vários minutos maquinando o que dizer para o cretino quando ele viesse se desculpar por não ter ido ao encontro. Ele não estava online. Aproveitou para adicionar Alex. O íconezinho dele estava verde.
─ Oi.
─ Ooiiiii!
─ Estava pensando em vc.
─ Eu tbm. Mas ja te disse tenho namoradu...
─ Talvez ele não seja a pessoa certa pra vc...
─ O que te faz pensar isso?
─ Pq eu vi o quanto nós combinamos.
Ele mandou um emotion de um coração girando.
─ Vc é legal. Gostei de vc tbm...
─ legal...?
─ Ta bom, te achei d+! Seu bjo mxeu cmigo.
─ Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito...
─ Mas o que vc quer que eu faça?
─ Termine com ele.
─ Eu gosto dele. Te conheci ontem! Não posso trocar ele por vc assim...
─ tem algo que eu preciso te falar...
─ ??
─ Na verdade vc já me conhecia.
─ Naum. Tenhu certeza!
─ Mesmo? Talvez com outro nome... outro rosto...
─ ??
─ Quem vc realmente estava esperando ontem?
Gil sentiu o coração bater mais forte. A respiração acelerou. Não podia ser...
─ Vc é o Dark Gero!!??
─ Sim.
Gil não poderia descrever a sensação pelo qual estava passando. Dark Gero... Era esse o Nick Name do cara com que marcara um encontro na noite anterior. Na verdade se conheciam há algumas semanas. A princípio, ele a enfurecia por não dizer quem era, pois não mostrava nenhuma foto nem falava nenhuma informação pessoal. Mas o que lhe chamou a atenção nele fora sua atitude marrenta e sua segurança. Na verdade, ele se achava totalmente. Dizia a ela que era capaz de fazer com que ela esquecesse o namorado e se apaixonar por ele. Fez até uma aposta, que se ele não conseguisse essa façanha em três conversas pelo MSN, ele mostraria seu rosto. Foi durante essas conversas que ela foi vendo aos poucos quem ele era. Escrevia em um blog, onde publicava contos de terror. Pediu que ela lesse, mas ela não estava muito interessada, inventando que ia estudar. Acabou dando uma olhada e não conseguiu mais parar. De fato ele escrevia bem. Aí vieram os elogios dele, sempre a colocando para cima. Ele sabia conversar, tratá-la bem. Era um prazer conversar com ele. Até um dia, em que ele a insultou. Ela furiosa, com sua usual impaciência, mandou-o para o inferno, mandou-o deixá-la em paz... Então ele mostrou o rosto... Mostrou seu perfil no Orkut. Ela viu suas fotos. Não era como ela imaginava. Na verdade, já havia conversado com ele antes. Não tinha mais o que cobrar dele, mas ele tinha dela. Um encontro. Ele insistira tanto naquele encontro, que ela se viu obrigada a ir. Mas não podia negar que estava interessada.
E agora aquilo?
─ Mentira. Olha, isso não tem graça!
─ Desculpa ter feito isso, mas eu precisava fazer esse teste...
─ Teste? Eu fui tua cobaia? E o Orkut que eu vi?
─ Um fake. Eu tinha que saber como vc agiria sem me conhecer. Desculpa mesmo! Vc não me decepcionou. Vc é tão perfeita quanto eu imaginava que era. Vc se superou pra mim...
Ela não sabia o que pensar. Não sabia se o odiava ainda mais ou se o admirava. Ele a fizera de idiota! Depois de deixá-la esperando como uma boba, finge ser outra pessoa! Isso era imperdoável!
─ Eu não imaginava que vc ia esperar tanto... Meu plano idiota te magoou, mas se estou te dizendo isso agora, é porque eu realmente estou apaixonado por vc! Gil, eu te amo, garota! Mais do que nunca!
─ Vc é um idiota! ─ saiu do MSN.
Gil não podia estar mais confusa. Não sabia o que pensar, nem o que sentir. Não conseguia ter raiva dele. Ele fora um cretino, mas mexera com ela, chamara sua atenção, conquistara-a, como havia prometido. Nenhum outro cara conseguia fazê-la ficar tão furiosa e confusa...
Resolveu tentar esquecê-lo. Mas a raiva não a deixava quieta nem um segundo. Ele não lhe saía de sua cabeça. Foi para a casa de sua melhor amiga, a (?). Tinha que conversar com alguém que confiasse. Ela estava ao seu lado quando mais precisava e nunca a abandonava. Acabou contando a ela toda a verdade. Era como tirar um peso enorme das costas. Ela a aconselhou, como sempre, fazendo-a se sentir muito melhor.
Mas não conseguiu tirá-lo da cabeça. Marcou um encontro com seu namorado, (?) e percebeu o quanto ele e Dark Gero eram diferentes... Ela amava (?), mas o fato do outro ser tão imperfeito e misterioso fazia-a ficar terrivelmente desconcertada. Sim... talvez a pessoa que ela realmente a amava era a que a estava fazendo sofrer...
Dois dias depois, teve uma surpresa horrível.
O carteiro entregou-lhe um estranho pacote. Ela foi para seu quarto, curiosa para saber o que era.
Era um CD. E uma carta.
Estranhou. A carta dizia para ela não tomar nenhuma atitude precipitada com relação àquilo e ir encontrá-lo naquela noite no shopping, no mesmo lugar com urgência. Embaixo estava assinado “Alex, o Dark Gero”.
Não suportando a curiosidade, colocou o CD no computador. A demora usual para ler o CD era uma eternidade naquele momento.
Era um vídeo.
Mostrava (?), sua amiga em um banco da praça. Estranhou. Por que Alex que enviaria um vídeo com sua amiga? Logo, (?) seu namorado aparecia e sentava-se ao lado de (?)...
... depois de lhe dar um caloroso beijo.
O chão sumiu sob os pés de Gil. Sua melhor amiga e seu namorado? Como podiam traí-la daquela maneira? Desligou o computador. Estava fervendo de ódio e desapontamento. Pensou em ligar para os dois cretinos e tirar aquela história a limpo...
Mas não ... Pegou novamente a carta. Seguiria o conselho de Alex...
Iria encontrá-lo.

● ● ●

Chegou cinco minutos antes do combinado. Dessa vez não haveria joguinhos ou testes. Ele teria de contar-lhe a verdade. Como sabia dos dois, desde quando eles a estavam traindo...
O celular tocou.
Número confidencial. Seria Alex?
─ Alô?
─ Gil? É você!?
─ Quem está falando?
─ Olha, quero que você preste total atenção ao que eu vou te dizer. Por favor, não interrompe!
─ O que é? Você está me assustando...
─ Eu sou Dark Gero. Seu namorado e sua amiga correm perigo!
─ Alex? Do que está falando?
─ Não! Eu não sou o Alex! Ele armou tudo. Me sabotou, Gil. No dia do nosso encontro, ele fez com que eu ficasse fora do caminho.
Gil. Estremeceu.
─ Que espécie de brincadeira é essa?
─ Olha, escuta bem... Não confia nele em hipótese alguma! Ele te enviou um vídeo?
A voz dela estava trêmula.
─ Sim...
─ É uma montagem, Gil. Não confie nele, me entendeu? Seu namorado e sua amiga estão em terrível perigo. Fica longe desse cara! Você não tem idéia do que ele pretende!
Gil desligou. Estava apavorada. A voz era grave como ele dissera que era. E estava tão assustada que não tinha como ser mentira. Saiu de onde estava sentindo o corpo inteiro tremer. Estava paranóica. (?) e (?) estavam em perigo? Discou o número de sua amiga.
Dez toques. Nada dela atender. Ela sempre atendia no segundo! Ligou para seu namorado. O celular dele estava fora de área. Começou a entrar em pânico...
─ Gil!?
Seu coração pareceu disparar. A voz atrás dela agira como um veneno paralisante. Não conseguia se mexer. Sentiu o toque em seu ombro. O dono daquele belo par de olhos azuis passou para a sua frente.
─ Gil, você está bem? ─ perguntou Alex, perante os apavorados e arregalados olhos da garota...



(Continua!)

Escrito por Dark Gero às 16h20
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02/10/2008


A Cadeira de Rodas (parte III/final) Conto por Dark Gero



Ficara ali, encolhida em um canto por um longo tempo. Talvez as velas que acendera na biblioteca houvessem se apagado e o homem de sorriso medonho e a assassina suicida tivessem sumido também. Pensou em esperar mais um pouco, talvez ainda estivessem esperando-a abrir a porta... Quando pensava nisso, seu sangue gelou, pois...
... ouvira a porta sendo destrancada, rangendo ao ser aberta.
Arregalou os olhos. Ouvia o nítido e fantasmagórico barulho de rodas adentrando a cozinha. Como as de uma cadeira de rodas...
Estava na escuridão, não podia acender velas, ou aquelas coisas reapareceriam. Entrou em pânico. Nem mesmo conseguiu mover-se. O barulho agudo e irritante de engrenagens parou de repente.
— Está tudo bem, minha filha. Tudo bem.
Era a voz de um velho.
Alessa ficou estática, sem reação. Do fundo do seu íntimo, algo lhe dizia que aquele era o velho Cabral que a mulher mencionara.
— Não se preocupe, não quero nem vou lhe fazer nenhum mal. Quero apenas que confie em mim, e que me ajude a descansar em paz.
— N-Não me machuque.
— Sou apenas um velho em uma cadeira de rodas. Que mal eu poderia fazer a você, jovem?
— O... O que você quer? — a voz lhe saía num fio. Ela não acreditava que estava falando com um velho falecido.
— Quero que me liberte, que termine o que comecei há anos.
— Mas...
— Siga-me — disse a voz, e a cadeira voltou a fazer barulho ao dar meia-volta e afastar-se.
As luzes acenderam-se repentinamente, iluminando a cadeira de rodas vazia que ultrapassava a porta da cozinha. Alessa levantou-se vagarosamente, ainda tentando digerir o que estava presenciando. Deveria seguir o fantasma? Caminhou até a porta, e viu a cadeira de rodas estava no meio da sala. Se prestasse atenção na sombra da cadeira, teria visto a sombra encurvada de uma figura sobre ela.
Alessa não sentia mais medo, não mais tremia. Fora invadida por um sentimento estranho com as palavras do velho. Um sentimento fraternal.
— Você é minha neta, Alessa — disse a voz vinda da cadeira de rodas.
— Meus avós morreram — protestou ela com a voz embargada de emoção.
— Seus avós de criação, querida. Eu sou o verdadeiro pai de sua mãe. Não foi por acaso que veio parar aqui. Só você pode me libertar dessas correntes que me prendem a esse mundo.
Sua mãe um dia lhe dissera que nunca conhecera o pai. Algo naquela voz lembrava sua mãe. O fantasma falava a verdade. Cabral era seu avô.
— Como... Como posso ajudá-lo? — ela estava chorando.
— Aproxime-se, minha neta. Sente-se na cadeira.
— Sentar?
— Isso, não tenha medo.
Ela aproximou-se cautelosamente. Seu coração estava confuso e emocionado. Como sua mãe quisera conhecer o pai verdadeiro! Tocou a cadeira. Sentou-se lentamente.
Seu corpo então pareceu levar um choque. Contorceu-se na cadeira aos gritos, com os olhos repentinamente brancos.


Jéssica esperou a décima chamada do celular. Finalmente atenderam.
— Alessa?
— Oi — a voz saíra inexpressiva.
— O que houve? Estava preocupada. Por que demorou pra atender?
— Não houve nada.
— Olha — a outra começou, entusiasmada —, eu falei com o diretor do jornal e ele aceitou fazer uma reportagem especial sobre esse casarão. Como você disse, dizem que é assombrado. O velho morador daí matou a própria esposa...
— Bobagem! — interrompeu Alessa com raiva. — Ele não matou ninguém. Ninguém conhece sua verdadeira história!
— E você conhece? — surpreendeu-se Jéssica com a reação de Alessa.
— Escute com atenção, e não me interrompa.
Contou que Cabral amava muito a esposa, ao contrário do que todos achavam. E como era sozinho no mundo, só tinha a ela. Quando esta morreu, ele entrou em depressão e não suportando a solidão, apelou para a magia negra para se comunicar com a amada. Contou quais eram os passos para se fazer o ritual, e o realizara diversas vezes. Um dia, porém, iniciou o ritual, mas no meio, sofreu um derrame e ficou impossibilitado de mover-se e proferir a oração negra de encerramento e de apagar o símbolo satânico de conjura, que estava desenhado em um objeto especial para ele. Isso o amaldiçoou, pois seu espírito se tronaria sentinela eterno da abertura para o mundo dos mortos, ou seja, do objeto cujo símbolo fora desenhado. Sua babá fora morta por ter acendido velas na casa. Espíritos malignos acabaram com sua vida, enquanto o pobre Cabral mal podia mover-se. Depois de morto, ficou prisioneiro da casa. A única maneira de se libertar era se alguém com seu sangue tomasse seu lugar. Alessa então revelou ser neta de Cabral.
— Você é neta dele? Como? Alessa, pelo amor de Deus que história maluca é essa que você está me contando?
— Ele era o verdadeiro pai de minha mãe. Já tomei minha decisão, Jéssica. Eu tomarei o lugar dele. Minha mãe sempre quis conhecê-lo. Não é justo que ele fique preso pra sempre aqui. Um dia eles terão de se encontrar...
— Alessa! Pára de falar bobagem — Jéssica estava terrivelmente preocupada com a seriedade com que Alessa falava. — Você não vá fazer besteira! Você é jovem, menina. Que loucura é essa de tomar o lugar do velho?
— Escute, amiga. Se um dia você realmente gostou de mim, terá de demonstrar lealdade agora. Eu decidi e ninguém poderá me fazer mudar de idéia. Eu tenho o direito de fazer minhas escolhas e eu já decidi.
Jéssica tentou dissuadi-la às lágrimas, mas não havia jeito. Alessa estava irredutível. E a fez prometer que nunca, jamais contaria aquilo a ninguém, acontecesse o que acontecesse. Jéssica teve de concordar, chorando convulsivamente. Alessa deu um ultimo adeus:
— Obrigada, amiga. Adeus — e desligou.


Alessa estava na cadeira de rodas, com o celular na mão, mas não era ela quem falava.
Era Cabral.
Ela articulava a boca, mas falava em pânico contra a sua vontade. Estava possuída. Cabral tinha de desabafar a verdadeira história para alguém, para que esse alguém carregasse sua cruz aqui na terra e que ele não precisasse levá-la para onde iria. Segredos são coisas terríveis para se carregar no inferno. Cabral sorriu, no corpo de sua “neta”. Conseguira convencê-la de que era o avô, o que não fora difícil já que conhecera o verdadeiro pai de sua mãe no mundo dos mortos. Bastara imitá-lo. Mesmo assim, ela nunca iria aceitar trocar de lugar com ele, claro. Por isso era preciso fazer isso à força. Possuí-la. Os outros que visitaram a casa não serviam, pois eram batizados. Alessa por sorte, não era.
Era chegada a hora. Alessa sentia a morte aproximando-se, mas era um destino pior que a aguardava.
— Desculpe, criança. Você achará outro para te substituir... — e dizendo isso, agarrou a própria cabeça e girou-a com violência, quebrando o pescoço.


A professora Alessa foi enterrada e ninguém conseguiu desvendar o crime. A hipótese da polícia era o suicídio. A perícia estava investigando a cadeira de rodas onde ela fora encontrada morta. O que era estranho já que ela não era deficiente física.
Os dois peritos estavam em uma sala, analisando a cadeira de rodas. Era noite. Estavam irritados por ter de trabalhar tão tarde.
— Eu queria saber que diabos a moça fazia... — disse o mais velho, de luvas, virando a cadeira. — Ei, Bráulio, olha só isso.
— Que merda é essa?
— É um símbolo esquisito, deve ser satânico — disse o outro se benzendo, ao ver o símbolo desenhado embaixo da cadeira de rodas.
— Vamos incluir no laudo, deve ser importante.
Súbito, as luzes se apagaram.
— Caralho! Não pode dar uma chuvinha que a luz pifa!
— Calma, Brau, relaxa. Eu vou pegar as velas.

...E o símbolo levará a maldição onde quer que for levado...


Escrito por Dark Gero às 19h40
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A Cadeira de Rodas (parte II) Conto por Dark Gero




Jéssica tocou a campainha do casarão. Ouviu uma movimentação lá dentro, então a porta abriu-se.
— Alessa! O que houve, estava chorando? — disse abraçando a amiga.
— Oh, Jéssica, você não vai acreditar, não vai acreditar... Entra.
Jéssica entrou no casarão, admirando brevemente seu interior, mas voltou sua atenção para a amiga, que estava com os olhos vermelhos de quem chorara. Estava visivelmente abalada. Sentaram-se no sofá. Jéssica segurou-lhe as mãos, preocupada. Alessandra contou com detalhes os estranhos acontecimentos da noite anterior, do contato com os outros hóspedes e de como acordara naquela manhã.
— Foi horrível, Jessy. Não há explicação para o que ocorreu. Eu havia trancado a porta por dentro, então como... como... — ela olhava para um ponto distante, imaginando a cena com horror. — Como aquela cadeira de rodas foi parar ao lado da minha cama?
— Como? Você tem certeza de que trancou a porta realmente?
— Claro. Absoluta.
Jéssica pensou por um momento e disse, com ar inteligente:
— Algum dos outros inquilinos deve ter a chave de seu quarto e resolveu te pregar uma peça. Onde estão eles? — ela deu uma olhada ao redor.
— Quando saí de manhã não havia mais ninguém aqui.
— E a entrevista, como foi? — Jéssica mudou de assunto.
— Péssima, amiga. Não poderia ter sido pior. Estava nervosa demais, impressionada com o que ocorreu ontem. É por isso que estou tão triste...
— Calma, Alessa, calma — confortou-a a Jéssica.
Conversaram por algum tempo, então resolveram dar uma volta, para relaxar, esquecer aquilo. Passaram o dia no shopping e em outros pontos interessantes da cidade. No meio da tarde, Jéssica teve de ir. Não a convidou a ir a sua casa porque sabia que ela não aceitaria. Alessa tivera um desentendimento com seu marido Diego. Um bate-boca para defender a amiga que virou um rancor não esquecido.
Alessa despediu-se de Jéssica e voltou para a casa, para enfrentar seus demônios. Talvez se fosse bem na próxima entrevista, eles ainda a aceitassem. Estava prestes a entrar no casarão, quando uma velha senhora, da casa vizinha, chamou sua atenção.
— Ei, minha jovem!
— Hum...? — ela virou-se para a mulher.
— Você viu? Você já viu ele?
— Ele quem? De quem você está falando?
— Do velho Cabral. Você já viu ele?
— Não, não senhora. Quem é Cabral?
— E a mulher dele? Você viu?
— Desculpe, não vi nenhum deles, não sei quem são.
¬— O Cabral era metido com o diabo, mocinha. Sacrificou a própria mulher em nome de Satã. Matou a babá mesmo estando com derrame, moribundo — benzeu-se. — Tome cuidado, pode ser a próxima.
A mulher virou-se, deixando Alessandra pasma. Entrou no casarão, sentando-se desconfortavelmente no sofá. Aquele lugar lhe dava arrepios. Olhou para o compartimento abaixo da escada, onde havia recolocado a cadeira de rodas. Fechou os olhos, rezando para que nada bizarro voltasse a lhe acontecer.
As palavras da vizinha maluca deixaram-na intrigada. Talvez o casarão tivesse suas lendas, seus fantasmas no imaginário do povo. Não tinha como saber. O atual dono da casa só a comprara por causa do preço ridículo, mas raramente pisava lá. Dos outros inquilinos ela pouco sabia. Ao pensar neles sentiu uma repentina raiva. Como ousavam tentar assustá-la daquela maneira?
Ouviu um trovão.
Sentiu um arrepio só de imaginar ficar na escuridão novamente. Providenciou logo algo para comer, para não precisar ter que ficar descendo e subindo aquelas desagradáveis escadas. Só então prestou atenção na pequena biblioteca. Andou até ela, admirando aquelas três estantes de livros velhos e empoeirados. Havia um livro de capa preta e marrom, com letras vermelhas, caído. Agachou-se e o pegou. O título a fez arrepiar-se: RITOS E MAGIAS NEGRAS.
Outro trovão ribombou no céu.
Uma tempestade começou a cair. Era como se o dia anterior estivesse se repetindo, o que era suficiente para apavorá-la. Resolveu ficar na biblioteca, assim poderia ver quando os outros inquilinos entrassem, para não ser pega de surpresa novamente. Não estava tão escuro, mas apanhou algumas velas e acendeu duas sobre a escrivaninha da biblioteca, pois o interruptor estava queimado. Deixou a porta aberta. Folheou o livro que encontrara caído. Pura e simples curiosidade. Na situação em que se encontrava, a última coisa que deveria fazer era folhear um livro com um título como aquele. As gravuras eram bizarras e satânicas, ilustravam rituais de magia negra e o texto era um manual de como realizá-los. Um deles lhe chamou a atenção: Como conjurar os mortos. O ritual era simples de se realizar, mas era assustadora a idéia de se invocar pessoas que já morreram. Os passos a seguir eram: 1. Desenhar um símbolo satânico no objeto mais próximo e precioso da pessoa (o símbolo estava desenhado no livro); 2. Fazer uma oração negra de conjura (também citada no livro); 3. Acender uma vela, tendo em mente a pessoa que se deseja conjurar, caso contrário o espírito mais próximo será conjurado; 4. O espírito invocado ficará materializado enquanto a vela durar. Caso a pessoa queira encurtar a permanência do espírito, basta apagar a vela. 5. O encerramento consiste em apagar a vela, ou esperar que se esvaia, fazer a oração negra de encerramento e apagar o símbolo desenhado.
Caso esse procedimento não fosse feito, uma grande quantidade de magia negra se concentraria no local em que o símbolo fosse desenhado, o que poderia causar um distúrbio no mundo dos mortos, então cada vela acesa no domínio do objeto conjuraria um espírito qualquer, geralmente um atormentado ou vingativo. A alma do conjurador se tornaria então sentinela eterna do objeto. E o símbolo levará a maldição onde quer que for levado.
Leu sobre os espíritos atormentados que o livro mencionara. Segundo ele, tais espíritos, por não terem paz após a morte, ficam extremamente confusos quando estão de volta entre os vivos e descontam suas mágoas e raivas neles. Costumam confundir vida e morte, vivos e mortos. Algumas vezes pensam estar vivos e apenas sofrem. São pouco comunicativos e muito violentos.
Alessa estava tão fascinada quando assustada com aquelas palavras. Embora fosse muito cética, o livro parecia exercer-lhe uma veracidade absurda. Resolveu deixá-lo de mão e subir para seu quarto, mas quando se levantou da cadeira, teve um súbito susto.
Havia um homem entre as estantes, olhando para ela.
Arrepiou-se por completo. Não só pela inesperada visão do estranho, mas por causa de sua expressão... Ele a olhava como se estivesse bravo.
¬— Q-Quem... Quem é você? ¬— perguntou com a voz trêmula, embargada de pavor.
Não houve resposta.
¬Ela afastou-se da escrivaninha, mas o homem nem se moveu, nem mesmo tirou os olhos dos dela. Há quanto tempo ele estivera ali? Talvez fosse um dos hóspedes, que já estava na biblioteca quando ela chegou, mas por que não dissera nada? Por que não dizia nada? Por que a olhava de forma tão furiosa? Era assustador!
¬— Por que não diz nada? — conseguiu perguntar.
O homem nem se moveu. E se fosse um ladrão?
¬— Meu nome é Paulo ¬¬— disse o homem, finalmente.
¬— Paulo? Você também mora aqui? ¬— tentava disfarçar o nervosismo, mas sua voz a denunciava.
¬— Não ¬— disse secamente.
Claro. Nenhum deles morava ali, iam até o casarão apenas casualmente. Pergunta idiota.
Ele continuava com o olhar bravo. Alessa não entendia o motivo. Talvez ela o estivesse incomodando.
¬— Você quer ficar sozinho?
¬— Quem é você? ¬— foi a vez de ele perguntar.
Então era isso. Ela não se apresentara em momento algum. Ela era a estranha na casa, Por isso ele estava bravo.
¬— Eu sou Alessandra, sou hóspede da casa como você. Desculpe-me não ter me apresentado antes, e...
Seu celular tocou.
Aproveitou essa desculpa para afastar-se do estranho. Saiu da biblioteca sem dizer nada ao homem. Atendeu o celular, nervosa. Era o dono da casa, um velho amigo de sua mãe. Perguntou como fora na entrevista e o que estava achando da casa. Ela mentiu sobre a casa, mas não omitiu o desastre que fora a entrevista.
— Lamento, Alessandra. Deve ter ficado nervosa por passar esses dias sozinha nesse velho casarão.
— Não estou sozinha. Tem um parente seu aqui. Ontem havia dois, e...
— Do que você está falando? Fora você, apenas meus dois sobrinhos e minha cunhada têm a chave da casa. E eles vieram jantar comigo hoje. Estão aqui na minha frente!
Alessa sentiu o coração gelar.
Estava pálida, trêmula, apavorada. Virou-se num impulso para trás. O homem estava parado diante da escrivaninha, com o mesmo olhar furioso. Então, de repente, abriu um bizarro e macabro sorriso, que distorcia seu rosto de uma forma assombrosa.
Caminhou na direção de Alessa.
Ela fechou a porta, desesperada, com as mãos trêmulas. Procurou a chave no molho de chaves, mas estava nervosa demais para acertar. O molho caiu no chão. Ela abaixou-se em pânico para agarrá-lo, enquanto os passos aproximavam-se da porta. Trancou-a. A maçaneta ficou girando furiosamente. Respirava ofegante, com o corpo todo tiritando. Virou-se, seguindo o instinto de sair da casa.
Gritou.
Na porta principal, de olhos fixos nela, estava a mesma mulher que vira chorando na noite anterior. Mas ela não mais chorava. Havia uma mancha vermelha na blusa, na altura do peito. Estava com uma faca na mão, suja de sangue.
— Viu o que eu fiz? — disse com um tom infantil.
Alessa se viu sem alternativa a não ser correr para a cozinha e trancar-se. O corpo arfava, transbordando adrenalina.
Discou o número de sua amiga. Esperou impaciente. Estava ocupado. Retornou a ligação do dono da casa. Nada. Três violentas batidas na porta a fizeram afastar-se com o coração na boca. As pernas estavam bambas; ela perdia a coordenação motora.
¬¬— Abre a porta, querida ¬— disse a voz suave da moça que há pouco vira com a faca na mão.
¬— Não! Não... por favor... ¬— a voz saía apagada, quase inaudível.
¬¬— Abre a porra dessa porta! ¬— explodiu ela.
Alessa começou a chorar de medo, como nunca antes.
¬— Sabe o que me fez fazer com o bebê, mãe? Eu matei ele! Fui dar banho nele e o afoguei. Eu afoguei o coitado, mãe! E sabe o que eu fiz depois? Adivinha, sua vaca! Adivinha!
Alessa não entendia por que a mulher a estava chamando de mãe, mas sua mente estava congestionada demais para preocupar-se com esse detalhe.
¬— Eu enfiei a faca no peito, mãe. Eu me matei, sua prostituta! Eu me matei! Tá feliz? Eu tô morta!
Um fantasma? Era um deles que batia na porta? Eram eles que ela vira? De repente, o que lera no velho livro começava a fazer sentido. Um bizarro e assombroso sentido.
...tais espíritos, por não terem paz após a morte, ficam extremamente confusos quando estão de volta entre os vivos e descontam suas mágoas e raivas neles...
Alessandra começou a rezar, de forma tão desesperada que tropeçava nas palavras e nem ao menos prestava atenção no que proferia.
...costumam confundir vida e morte, vivos e mortos...
Os trovões começaram a ficar mais violentos, e Alessa temeu que a energia elétrica fosse embora. A cozinha era totalmente fechada e forrada, o que dificultava a entrada de luz. Não tinha acendido as lâmpadas ainda. Onde era a droga do interruptor? Encontrou-o e o ligou. Procurou o local onde encontrara velas na noite anterior. Era apavorante a idéia de ficar no escuro com aqueles demônios.
— Mããe!
Voltou a rezar, de olhos fechados.
— Aparece, sua vagabunda!
Os trovões pareciam mais altos, a tempestade parecia mais violenta. Ninguém ouviria seus gritos. Acendeu uma das velas e a pôs sobre uma mesa. Depois acendeu outra com a chama da primeira, e outra... Devido ao nervosismo, tinha dificuldade em fixá-las na mesa. Em pouco tempo havia acendido quase dois maços de velas.
Foi quando as luzes das lâmpadas se apagaram ao som de um estrondoso trovão.
Não ficara no escuro graças às velas. A suicida ensangüentada parara de gritar lá fora. Alessa continuou com suas preces, de olhos fechados. Quando os abriu, foi dominada pelo terror.
Na penumbra, vários rostos a observavam.
Rostos medonhos. Rostos de pessoas mortas.
Todos de olhos fixos na figura apavorada de Alessa. Estava cercada. As luzes bruxuleantes tornavam ainda mais fantasmagórico o macabro ambiente. Começaram a aproximar-se. Uma das velas tombou, derrubando outra e ambas apagaram-se ao se chocarem com o chão.
Ao mesmo tempo dois fantasmas desapareceram.
Simplesmente esvaíram-se.
A mente apavorada de Alessa então começou a raciocinar de forma veloz.
...então cada vela acesa no domínio do objeto conjuraria um espírito qualquer, geralmente um atormentado ou vingativo...
Alessa agarrou a mesa e virou-a violentamente.
...Caso a pessoa queira encurtar a permanência do espírito, basta apagar a vela...
Mergulhou na terrível escuridão.


(Continua...)



Escrito por Dark Gero às 19h17
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