DARK GERO


17/01/2009


Lugar Nenhum (Parte IV) por Dark Gero


Gil abriu os olhos com dificuldade, sentindo uma forte dor na nuca. Tocou o local dolorido e detectou que estava inchado. Uma luz ofuscava sua visão; tapou os olhos para não feri-los com a claridade. A princípio achou que estava de dia, mas logo percebeu que não. A luz saiu de seu rosto. Piscou várias vezes para que pudesse enxergar melhor.
Gil afastou-se de costas, sentada no chão frio, ao reconhecer quem estava em sua frente.
─ Oi, Gil ─ ele disse tranquilamente. Era a mesma voz grave que ouvira no shopping ao celular, e o mesmo rosto que vira tantas vezes no Orkut. Era Dark Gero.
Ele estava encostado em uma parede, segurando uma lanterna nas mãos. Deu um sorriso impassível. Gil olhou para os lados, tentando se situar. Claro que não estava mais em sua casa. Aquilo era... algum lugar da Universidade Federal. Uma parte bem escura, isolada. Perguntou-se como fora parar ali. Mas o que mais lhe preocupava estava em sua frente.
─ O que quer de mim? ─ ela conseguiu demonstrar raiva na voz.
─ Prazer em conhecê-la também ─ ironizou ele sorrindo. ─ É hora de esclarecer tudo, Gil. Desde o início.
Ela pensou em virar-se e correr gritando, mas um lado dela mais dominante estava disposto a saber a verdade. Por que aquilo tudo estava acontecendo?
─ Fala ─ apesar de estar com medo, sua voz era dura.
Ele sorriu.
─ Para começar, linda, Dark Gero existe realmente, é um professor jovem metido a escritor... ─ ele falava olhando para algum ponto distante. ─ Mas não sou eu. Este, aliás, é o rosto dele. Não ficaria feliz em ver o meu verdadeiro.
Ela estremeceu.
─ Quem é você?
─ Alguém que segue ordens.
─ O que você quer? ─ ela explodiu, não suportando mais aquilo.
Ele virou o rosto lentamente para ela, ainda com a mesma impassividade.
─ Acredite ou não, estou aqui para salvá-la, te dar uma chance de sobreviver. Se eles te pegarem, vai desejar nunca ter nascido.
As palavras frias dele tinham efeito hipnótico sobre ela. Como se ele lhe injetasse doses cada vez maiores de medo. Ele percebeu o pavor nos olhos dela e resolveu continuar a falar.
─ Quem você prefere? Você ou sua família?
A pergunta teve o efeito de um soco em seu estômago.
─ O... O que quer dizer? ─ a voz saiu num murmúrio.
─ Prefere morrer ou ver sua família morta?
Ela engoliu em seco.
─ Nenhum dos dois! ─ ela gritou, desafiante.
─ Claro que não. Mas não estou falando de uma terceira escolha. Eles querem você, mas se não conseguirem, vão fazer mal à sua família.
─ Eles quem!?
Ele aproximou-se dela, olhando bem em seus olhos.
─ Você é especial, Gil. Chegou a hora de despertar, descobrir quem você realmente é.
─ Do que está falando? ─ ela franziu o cenho, intrigada. ─ Eu sei quem eu sou.
Ele estreitou os olhos, com o olhar sombrio.
─ Gil... Quando disse que sua família estava em perigo, não me referia a essas pessoas que você conheceu e aprendeu a amar... Estava falando de sua verdadeira família...
─ Você está louco. Eu sei quem são meus pais. Eu não fui adotada ou coisa assim. Tenho certeza de quem eles são!
─ Eles não são reais, Gil... ─ ele falou com uma paciência quase incômoda. ─ Tudo o que você conhece, todos que conhece... Nada é real.
Ela riu. Não estava mais com medo, estava com raiva.
─ Você é um louco, um psicopata! Eu quero voltar para casa! Quero voltar para os meus pais!
─ Eu vou levar você aos seus pais... Aos verdadeiros.
─ Não! ─ ela gritou, virando-se para correr.
Ele agarrou seu braço com uma velocidade impressionante. Ela preparou-se para gritar mais uma vez.
Um estouro.
A mão dele largou a dela e ele caiu pesadamente no chão. Gil olhou aterrorizada para seu corpo, depois para a direção oposta.
Alex estava a alguns metros com a mão estirada, segurando um revólver.
─ Venha, Gil! Ele vai se levantar!
Ela ficou por um momento sem ação. Olhou novamente para o corpo caído e então correu na direção de Alex.
─ O que está acontecendo, Alex?
─ Depois eu te explico! Vamos!
Os dois correram e se viram em um bloco verde, cheio de corredores, como um labirinto. Alex parecia saber para onde estava indo e ela apenas o seguia, terrivelmente confusa. Ele encostou-se atrás de uma árvore, fazendo-a esconder-se também.
─ Gil, não acredite em uma palavra que ele tiver te dito!
─ Eu não sei em quem confiar! O que ele quis dizer?
─ Mentiras, Gil. Mentiras! Desculpa eu ter te escondido a verdade por tanto tempo. Eu preciso te contar tudo... Mas antes você tem que fazer algo por mim...
Ela olhou confusa e intrigada para ele.
Ele entregou-lhe a arma.
─ Atire nele. Se for por suas mãos ele desaparecerá para sempre.
Do fim do corredor ele surgiu, aproximando-se lentamente. Ela tremeu.
─ Apenas aperte o gatilho! ─ ordenou Alex.
─ Se me matar, ninguém poderá salvá-la, senhora.
Gil estranhou o "senhora", mas não ligou muito. Tinha de decidir se devia atirar ou não.
─ Ele não é humano, Gil ─ falou o falso Dark Gero. ─ Pense bem... Lembre-se dos momentos em que estava com ele... Alguém mais o viu?
Gil estremeceu. Um flashback se passou por sua memória. Não se lembrava de ter visto ninguém olhando para Alex quando os dois estavam juntos. Aliás... Santo Deus! As pessoas olhavam para ela como se estivesse louca, como se estivesse falando sozinha. Lembrou-se da senhora de verde olhando com estranheza para ela... do homem que aproximou-se dela, sem dar a mínina atenção para Alex... "Está tudo bem?"...
Ela apontou a arma para Alex, com as mãos trêmulas.
─ Você... Não é real!
─ Sou sim... ─ ele falou com um estranho sorriso. ─ Muito mais do que tudo o que você conhece. Está na hora de entregar-se ao lado certo, vossa alteza... ─ ele levantou-se...
Gil atirou. Sem hesitar. Foi dominada por um impulso de sobrevivência. O corpo de Alex chocou-se contra a árvore, caindo inerte no chão. O outro aproximava-se sorrindo.
─ Ainda bem que enxergou a verdade, senhora...
Gil atirou nele. Um tiro certeiro na região do ombro. Desta vez ele deu um grito gutural, agonizando de forma terrível. Cambaleou, caindo de joelhos.
─ Senhora...
─ Por que está me chamando assim? ─ ela gritou desesperada, com os olhos cheios de lágrimas. Havia atirado em duas pessoas, ou seja lá o que fossem.
─ Eu preciso... chamar... alguém... ─ ele entrelaçou as mãos, mantendo os polegares para baixo, com as pontas unidas. No meio das mãos surgiu uma ponta de luz avermelhada flutuando.
Gil arregalou os olhos ao ver que a escuridão atrás dele estava tremendo, como se algo estivesse prestes a sair de lá.
─ Finalmente ─ a voz atrás dela a sobressaltou. Era Alex. ─ Você não despertou ainda, não sabe usar os poderes e seu único servo disponível está morrendo. Vai ser fácil dominá-la com o selo agora...
Ela atirou várias vezes nele, até as balas acabarem. Os tiros não lhe causavam nenhum dano. Estava desesperadamente apavorada.
─ Não pode me matar, não foi você quem me amaldiçoou. Mas ele está morrendo, porque foi por suas mãos ─ apontou para o corpo já caído do outro. Ainda agonizava.
Gil recuou um pouco, à medida que ele avançava.
─ Está com medo de mim? ─ ele riu. ─ É porque não viu meu verdadeiro rosto...
Gil levou as mãos à boca, horrorizada. O rosto de Alex começou a deteriorar, revelando uma figura disforme, com as órbitas dos olhos vazias, como um cadáver em decomposição. Aquela boca medonha imitou um sorriso ao ver o pavor nos olhos de Gil.
Mas logo sua expressão mudou. Ele parecia apavorado, olhando para cima da garota. Uma doce melodia de gaita saiu repentinamente da escuridão. Alex começou a contorcer-se, com o corpo se distorcendo no ritmo do som, como se estivesse sendo eletrocutado ou coisa assim.
─ Calef... Maldito!
Deu um grito terrível e saltou para a escuridão na direção oposta, desaparecendo. Gil olhou para trás lentamente.
Havia um homem jovem vestido de preto pelo corpo inteiro, com dois cintos no braço, cabelos preto-azulados e com uma maquiagem gótica, não muito extravagante, apenas sombria, agachado ao lado do corpo agonizante segurando uma gaita que acabara de tocar. Seus olhos estava vermelhos, brilhando como brasas.
─ Ela... não despertou, Calef. Eu... falhei... Eles virão, e...
─ Não se preocupe, amigo. Eu assumo daqui. Nós já estamos com a escolhida por Divarius. Ela ajudará a princesa a despertar.
O moribundo deu um sorriso de satisfação.
─ Cuide dela...
─ Eu irei ─ prometeu o outro, vendo-o dar seu último suspiro. Então finalmente olhou para a figura apavorada de Gil, estática pelo medo. ─ Seu desmorto era realmente fiel a você, princesa.
Princesa? Do que ele estava falando? O coração de Gil disparou quando ele aproximou-se.
─ Já faz muito tempo. Pena que não se lembre de mim. Sinto muito por ter de despertá-la, mas é necessário que saiba de toda a verdade. Você não é humana, essa realidade foi você quem criou para se refugiar e proteger seu clã ─ ele tocou levemente seu rosto. ─ Meu nome é Calef. Preciso mostrar-lhe uma coisa. O mundo real.
─ Como... como assim? Então onde é que estamos? ─ ela murmurou, se entregando à insanidade daquela situação.
Ele sorriu.
─ Em lugar nenhum. Você está dormindo, alteza.
─ Lugar nenhum...? Isto é um sonho? ─ sua voz era apenas um fio.
Ele aproximou-se ainda mais.
─ Chame como quiser. Vou levar você a alguém que pode despertá-la...
Tocou seus lábios frios nos dela. A visão de Gil escureceu completamente...

 

(Continua em Melodia de Lugar Nenhum)

 

Escrito por Dark Gero às 20h03
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Melodia (Parte III) por Dark Gero

 

- O que quer dizer com isso? Como assim não tinha nenhum outro humano além de mim no ônibus?
Calef andou alguns metros. Olhou para cima, para as copas das árvores filtrando a luz solar sobre ele. Depois voltou a olhar para a garota, com uma certa pena dela. Era linda, tinha um belo futuro pela frente, e agora estava metida com segredos milenares.
- Eram criaturas de Divarius. Esse seu colega que via de vez em quando era o espião encarregado de monitorá-la. Todos eram seres que já morreram e que se entregaram ao poder negro dos vampiros, tornando-se escravos. Nós os chamamos de desmortos. Alguns só são vistos pela pessoa que são encarregados de atormentar, seguir, ou no seu caso, atrair. Caso Divarius tenha o que quer de você, Você vai tornar-se um deles.
Bruna sentiu um arrepio na espinha só de imaginar.
- Mas... Como eu sobrevivi? Por que o ônibus parou?
- Minha melodia - Calef sorriu mostrando sua gaita. - Tem o poder de expelir desmortos e atrair seres vivos. Alguns de nós usam isso para caçar...
O sorriso malicioso de Calef fez Bruna estremecer mais uma vez.
- Eu quero voltar pra casa! Quero sair deste lugar!
- Só quando Divarius estiver morto.
- Vampiros não são imortais? - a curiosidade abriu espaço entre o medo.
- Basta fazer-nos beber do próprio sangue. Nós sugamos sangue, sangue é vida, mas nosso sangue representa a morte. Se bebermos desse veneno maldito, morremos. Qualquer ser humano que bebe do nosso sangue se torna um desmorto, sendo escravizado pelo dono do sangue.
Calef notou o olhar apavorado de Bruna. Sabia que aquelas informações fantásticas não estavam sendo digeridas facilmente por ela. Tinha de ser paciente.
- Vamos, temos que encontrar Perine.
- Perine?
- É uma das minhas. Vamos.
Ele segurou na mão de Bruna, e só então ela notou o quanto a mão dele era fria. Por mais que sentisse medo, Calef lhe transmitia uma certa segurança, considerando-se que ele estava do seu lado e que sendo um vampiro, tinha poderes vampíricos. Andaram entre as árvores por horas. Bruna não tinha a mínima idéia de onde estava, muito menos para onde estava indo. Pelo menos era uma esperança de ficar a salvo. Depois de algum tempo, pôde avistar uma cabana na direção em que caminhavam. Chegaram até ela.
- Bem, agora basta esperar ela chegar.
- Por que esperar por ela? Eu quero ir pra casa...
Calef irritou-se.
- Não adianta discutir, garota. Se voltar pra casa vai colocar as vidas de seus pais em risco. É isso o que pretende?
Ela baixou o olhar.
Calef sentiu dó dela. Conduziu-a para dentro da cabana, que era rusticamente mobiliada. Bruna sentou-se em um sofá velho, com o olhar triste. O vampiro sentou-se ao seu lado.
- Isso tudo é pra proteger você, garota. Depois que tudo terminar, você vai embora.
- Por que estão se importando comigo? Você também é um vampiro.
- Se Divarius conseguir o que quer de você, nascerá o herdeiro mais poderoso do clã dele, que herdará poder das trevas total. Por séculos temíamos que isso acontecesse.
Ela franziu a testa.
- Quantos anos você tem?
- Mais do que possa imaginar... - ele sorriu amavelmente, abandonando sua postura rude do início. Parecia estar se apegando a Bruna.
Ela hesitou bastante antes de ter coragem de fazer a pergunta seguinte. Engoliu em seco.
- Vocês... Alimentam-se de sangue... humano?
- Sim - respondeu calmamente.
- Até você?
- Todos nós.
Ela afastou-se dele no sofá. Ele abriu uma gargalhada.
- Não tenha medo. Só me alimento de bandidos, assassinos e pessoas que merecem realmente morrer. Nunca matei nenhum inocente. O contrário da maioria de nós...
Mesmo assim ainda era assustadora a idéia de que ele se alimentava de humanos.
- Por que as pessoas não sabem sobre vocês? Se existem há tanto tempo, deveríamos ter conhecimento...
- Vocês sabem de nós. Só não acreditam. Você, por exemplo, conhece a palavra "vampiro", sabe o que representa, mas não acreditava que nós existíamos. Assim é com a maioria. Somos apenas lendas para vocês. Queremos que continue assim, mas Divarius pretende quebrar os pactos milenares e levar à tona nossos segredos para conquistar a humanidade.
Cada vez mais o nome desse vampiro fazia Bruna temê-lo terrivelmente. Resolveu mudar de assunto.
- Quem é Perine? É sua... namorada?
Calef gargalhou novamente. Ele tinha uma aparência jovem para toda a sua idade. Aparentava ter no máximo uns vinte e dois anos. Bruna notou que por baixo daquele visual gótico e melancólico havia uma alegria latente. E isso de certa forma a irritava e fascinava. Começava a simpatizar com o vampiro, mesmo que ele estivesse se divertindo com a ignorância dela quanto ao seu mundo.
- Não, não. Perine iria surtar se ouvisse isso.
Bruna não entendeu o motivo da graça, mas resolveu não perguntar. Depois de mais algum tempo, seu estômago roncou e ela corou a ver que Calef havia notado. Ao invés de rir dela, pareceu preocupado.
- Ah, claro! Desculpe, esqueci que vocês humanos precisam comer. Está quase anoitecendo e tudo o que você comeu foi aquela maçã...
Nem mesmo a maçã ela havia comido. Tinha jogado fora pouco depois que ele lhe dera. Ele andou pela cabana vasculhando alguns armários, à procura de algo comestível para ela. Aparentemente não estava tendo nenhum sucesso.
- Fique aqui, vou procurar alguma coisa.
- Não! - Bruna assustou-se com a emergência em sua própria voz. - Não me deixe sozinha...
- Não vou demorar - ele sorriu. - Não tem idéia do quanto nós somos velozes.
Ela não pôde contestar. Além do mais, estava morrendo de fome.
- Volto logo, prometo - ele deu um sorriso convalescente e saiu pela porta da cabana.
Bruna correu até a janela para ver ele se afastando. Ele movia-se de forma graciosa, com movimentos precisos. De repente, com uma velocidade impressionante, desapareceu no meio das árvores. Agora ela estava sozinha. O medo cresceu dentro dela. Pensou por um segundo em fugir, mas não tinha idéia de onde estava. Além do mais, por alguma razão confiava em Calef. O jovem vampiro parecia disposto a cuidar dela. Bruna sentou-se no sofá e ficou lá, encolhida.
A noite caiu rapidamente. Já fazia um bom tempo que Calef havia saído. Estava começando a preocupar-se - nem sabia mais se com ela ou com ele. Acendeu algumas velas que encontrara em um dos armários pela cabana, para evitar a tremenda escuridão.
Um forte barulho na parede da cabana a sobressaltou.
O que seria?
Um segundo barulho, mais forte e mais alto veio da parede na outra extremidade. Seu coração apertou.
- Calef? Calef, é você? - sua voz saía quase num fio. O vampiro gostava de se divertir às suas custas. Não duvidava que fosse ele tentando assustá-la.
Mas não houve resposta.
Havia um pé-de-cabra encostado perto do fogareiro. Ele correu para pegá-lo.
Um vulto passou pela porta. Pôde reconhecer o rosto do garoto que estava ao seu lado no ônibus. Ele sorriu ao vê-la.
- Finalmente encontramos você!
Ela se lembrou de como Calef os chamara. Desmortos. Segurou o pé-de-cabra com mais força.
- Vem comigo, garota! Está todo mundo esperando por você!
Um flash se passou pela mente dela. E se tudo o que Calef havia lhe contado fosse mentira? E se não existisse nenhum desmorto? Tudo o que ela sabia fora ele quem lhe contara. E se ele tivesse más intenções com ela?
- Não se lembra de mim? Não vou te machucar!
- Onde estão os outros? - ela sussurrou.
- Esperando por nós - ele abriu um sorriso. - Graças a Deus te encontramos! - ele estendeu a mão para que ela se aproximasse.
Desmortos, Vampiros... Como podia ter acreditado naquelas coisas ridículas? Calef devia ser só um psicopata cheio de truques e de uma lábia muito convincente. Ver aquele personagem real em sua frente, dizendo que tudo ia ficar bem, fazia-a pensar que Divarius e seus planos conspiratórios não passavam de idiotice.
Andou até ele. Segurou sua mão.
- Vamos. Tudo vai ficar bem - ele prometeu com um sorriso tranqüilizador.
Ela deu um sorriso de alívio. Em breve estaria em casa. Arrepiou-se ao lembrar que passara tanto tempo com um psicótico estranho - e pior, acreditara em seus delírios. Saíram da cabana e Bruna pôde ver que todos os passageiros do ônibus a estavam esperando do lado de fora. Todos olharam para ela ao mesmo tempo.
Mas havia algo errado.
Os olhares de todos... Não eram de satisfação por reencontrá-la. Eram impassíveis, indiferentes. Olhou lentamente para o lado, para o garoto que segurava seu braço. Ele apertou mais ainda, com um sorriso frio. Um calafrio lambeu sua espinha. Ela arregalou os olhos ao olhar novamente para os outros. Todos estavam sorrindo de forma bizarra, quase distorcida.
Bruna juntou todas as suas forças para soltar-se do braço do garoto. O pé-de-cabra ainda estava em sua mão. O garoto avançou.
Um golpe.
Deu para ouvir o estralar dos ossos do rosto dele. Seu corpo cambaleou para o lado, quase caindo. Ele se recompôs, enquanto ela recuava assustada. O rosto dele agora estava deformado, começando lentamente a se decompor em uma forma putrefata, como a de um defunto. Seu olhar estava raivoso, fuzilando-a. Bruna olhou para os outros. Todos os seus rostos tinha se convertido em caretas disformes; todos iam em sua direção... O garoto que acertara com o pé-de-cabra deu um grito odioso, fazendo seu maxilar descer um palmo de distância da parte superior da boca.
Bruna virou-se, e começou a correr. Correu como nunca antes em sua vida, motivada por um pavor terrível. Corria por sua vida, corria por Calef. Como pudera não acreditar nele? Como pudera ser tão idiota? O bosque estava mergulhado na escuridão e ela podia ouvir os passos correndo atrás dela. Tropeçou várias vezes, mas teve de se recompor rapidamente. Alcançou uma ribanceira, escondendo-se atrás de uma grande pedra ao lado de uma árvore.
Silêncio.
Seus ouvidos só captavam pequenos ruídos de animais. Teria despistado os desmortos? Ficou ali por alguns minutos, prendendo a respiração ao máximo, temendo que ouvissem as batidas de seu coração alucinado.
Ruído na escuridão.
Arregalou os olhos, imaginando ver alguma daquelas criaturas novamente. Apertou o pé-de-cabra em suas mãos. Dois pontos vermelhos brilharam à sua frente, a poucos centímetros do chão. Os dois pontinhos subiram em um tronco. Notando bem, não era um vermelho, mas sim um alaranjado forte. A luz da lua que escapava pelas copas das árvores iluminou o dono dos pontos luminosos.
Um gato.
Bruna suspirou aliviada. Era um lindo gato - ou gata - de pêlo cinza e branco. Estava com os olhos brilhantes fixos nos dela. Por um instante, uma estranha onda de paz invadiu-a, como se fosse possível se acalmar em uma situação daquelas. Mas de uma forma impossivelmente tranqüila, ela relaxou.
O gato desviou o olhar, fixando os olhos de fogo em algum ponto acima de Bruna. Eriçou os pêlos em posição de ataque. Bruna olhou para trás.
Vários vultos aproximavam-se lentamente entre as árvores.
Bruna levantou-se, mas como se estivesse drogada, não conseguia entrar em pânico. Era como se algo lhe dissesse de alguma maneira que tudo estaria bem.
Então aconteceu.
O gato pulou da fraca luz que o iluminava e, das sombras para onde havia saltado, levantou-se uma forma humana - uma mulher, uma linda mulher - vestida de preto, como Calef, só que de uma forma mais delicada. Havia alguns detalhes em verde escuro em sua roupa, como algumas tiras decorativas. Seu longo cabelo cinza esvoaçou assim que ficou completamente em pé.
Aquela mulher... era a gata que acabara de pular?
Ela olhou para trás, com um olhar calmo. Seus olhos eram da cor dos da gata, vivos como uma chama.
- Não se preocupe, eles não vão machucar você.
Bruna nada disse. Observou a jovem linda avançar na direção dos desmortos...
... arreganhando antes a boca, fazendo duas enormes presas descerem de onde antes haviam seus dois caninos.


(continua...)

 

Escrito por Dark Gero às 19h21
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