DARK GERO


03/01/2009


Melodia (por Dark Gero)

 

Bruna acordou no meio da noite novamente, notando que todos no ônibus, exceto o motorista, ainda estavam dormindo. Sentia uma leve dor de cabeça que a acompanhava desde o início da viagem. Esfregou as têmporas vagarosamente, na tentativa de amenizar aquela dorzinha irritante. Estava odiando aquela excursão. Principalmente pelo fato de não ter não conhecer ninguém ali. Aquela excursão escolar deveria ser divertida, se por acaso alguma de suas amigas estivesse nela. Fora escolhida por sorteio, assim como todos os outros estudantes que dormiam no ônibus.
O garoto no assento ao lado era um loirinho que ela vira poucas vezes pela escola. Não puxara assunto com ele, embora ele tivesse tentado no início da viagem. Bruna estava de certa forma irritada, sem saber pelo quê ou por quem. Talvez fosse apenas frustração. Não saberia explicar.
Olhou para o celular. Eram mais de onze horas da noite. Resolveu dormir novamente para que a viagem terminasse logo. Olhou para fora da janela, vendo aquela paisagem sombria passar em alta velocidade por ela. Encostou-se novamente em seu assento, fechando os olhos. Levou vinte minutos para conseguir pegar no sono.


Abriu os olhos.
O ônibus estava parado. O assento ao seu lado estava vazio. O garoto devia ter ido ao banheiro, ou... Ergueu-se, olhando ao redor. Arregalou os olhos, espantada.
Todos os assentos estavam vazios.
Teriam chegado a alguma parada? Olhou pela janela, nervosa, notando que estava na estrada de terra, próximo à escura vegetação. O que estava acontecendo? O ônibus furara o pneu ou algo do tipo? Correu para a porta do ônibus, vendo em pânico que não havia ninguém do lado de fora. O ônibus estava ao lado de uma ribanceira, no meio do nada. Não havia sinal de civilização por perto. Santo Deus! Onde estou?, ela desesperou-se, sem ter idéia do que poderia ter acontecido. O ônibus dera problema e eles pegaram algum outro? Mas por que ninguém a acordara? Aquilo era absurdo demais! Experimentou a sensação de estar sonhando, mas seu medo era grande o bastante para prová-la que estava muito bem acordada.
Gritou. Chamava por qualquer pessoa. Estava em pânico. Aquilo era surreal, impossível! Queria ouvir a voz de outra pessoa, qualquer uma, só para saber que não estava sozinha. Uma série de explicações absurdas desenhava-se em sua mente: Todos escondidos para dar-lhe um susto idiota, ou abdução... Não aceitava estar largada no meio do nada, perdida naquela escuridão assombrosa das árvores!
O celular, claro! Tentou ligar para sua mãe, mas não havia sinal. Tentou vários outros números.
Nada.
Começou a chorar. Nunca sentira tanto medo em sua vida, embora não tivesse aceitado por completo a idéia de ter sido abandonada ali... ou coisa pior! O silêncio era profundo, assustador. Parou de chorar ao analisar suas opções. Alguém teria de voltar para pegar o ônibus, então ela só tinha que ficar lá dentro até que a apanhassem. Apanhassem... essa palavra pareceu desagradável para ela. Ficar dentro de um ônibus vazio no meio da noite, perdida, era suficientemente desesperador.
Gritou novamente, mais alto, a plenos pulmões...
Mas parou. E se atraísse o oposto do que desejava?
Seu coração disparou de repente, tirando-a do tranze em que se encontrava.
Ouviu um som agradável, de uma gaita, sendo tocada divinamente. Havia alguém por perto? Seria um dos passageiros? Talvez tivessem acampado, ou... Balançou a cabeça, dando-se conta do quão aquelas suas idéias estavam sendo ridículas.
O som vinha do meio das árvores. Havia uma trilha na direção da linda melodia. Gritou por socorro, mas quem quer que estivesse tocando, parecia não ouvir. Seguiu um impulso que não pôde controlar.
Adentrou a trilha.
Com o auxílio da luz de seu celular, Bruna seguia entre aquelas árvores mergulhadas nas sombras. O que estava fazendo ao certo? Por que estava seguindo aquela melodia? As respostas não vinham até ela, apenas aquele estranho impulso. O som divinamente tocado pela gaita parecia estar mais próximo...
Mas era impossível, pois ele...
...vinha de cima...
Bruna levantou a cabeça tentando inutilmente iluminar com o celular as sombras sobre ela. Alguém estava tocando a gaita sobre as árvores.
- Oi? Quem está aí?
Em sua sã consciência, Bruna perguntaria-se o que faria alguém tocar gaita na mais profunda escuridão em árvores de mais de três metros de altura. Mas ela nem de longe estava sã; não em sua situação.
A melodia cessou. O silêncio devorou a escuridão novamente.
- Oi... - disse a voz sobre ela. Era grave, embora fosse carregada de um tom aveludado.
- Que-quem... - Bruna tremia terrivelmente, tanto, que não conseguia focar a luz em ponto algum. A espécie de hipnose causada pela gaita acabara, pois ela voltara a entrar em pânico, apavorada com sua companhia misteriosa.
Ouviu o som de algo caindo pesadamente no chão a poucos metros dela. Ele pulara de cima... Ela pôde divisar com horror naquele ponto um par brilhante de olhos vermelhos fitando-a fixamente, com admirável satisfação.
Bruna dessa vez seguira um outro instinto, o de sobrevivência... Saiu correndo às cegas entre as árvores, de vez em quando esbarrando violentamente em alguma e caindo no chão. Ouvia passos lentos atrás dela. Fechou os olhos com forças, sentindo a dor lancinante causada pelo impacto com a árvore.
Ela abriu os olhos, ainda entorpecida pelo que havia acabado de presenciar. Talvez fosse apenas um sonho. Sim... Aquilo não podia ser real.
Levantou-se ainda zonza, sentindo a dor de cabeça piorar.
Virou-se ao sentir a respiração em sua nuca.
Deparou-se novamente com aquele sinistro par de olhos vermelhos, a poucos centímetros de seu rosto.
- Olá, Bruna - ele falou com um sorriso maldoso nos lábios.

 

(Continua...)

 

 

Escrito por Dark Gero às 19h54
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