DARK GERO


02/10/2008


A Cadeira de Rodas (parte III/final) Conto por Dark Gero



Ficara ali, encolhida em um canto por um longo tempo. Talvez as velas que acendera na biblioteca houvessem se apagado e o homem de sorriso medonho e a assassina suicida tivessem sumido também. Pensou em esperar mais um pouco, talvez ainda estivessem esperando-a abrir a porta... Quando pensava nisso, seu sangue gelou, pois...
... ouvira a porta sendo destrancada, rangendo ao ser aberta.
Arregalou os olhos. Ouvia o nítido e fantasmagórico barulho de rodas adentrando a cozinha. Como as de uma cadeira de rodas...
Estava na escuridão, não podia acender velas, ou aquelas coisas reapareceriam. Entrou em pânico. Nem mesmo conseguiu mover-se. O barulho agudo e irritante de engrenagens parou de repente.
— Está tudo bem, minha filha. Tudo bem.
Era a voz de um velho.
Alessa ficou estática, sem reação. Do fundo do seu íntimo, algo lhe dizia que aquele era o velho Cabral que a mulher mencionara.
— Não se preocupe, não quero nem vou lhe fazer nenhum mal. Quero apenas que confie em mim, e que me ajude a descansar em paz.
— N-Não me machuque.
— Sou apenas um velho em uma cadeira de rodas. Que mal eu poderia fazer a você, jovem?
— O... O que você quer? — a voz lhe saía num fio. Ela não acreditava que estava falando com um velho falecido.
— Quero que me liberte, que termine o que comecei há anos.
— Mas...
— Siga-me — disse a voz, e a cadeira voltou a fazer barulho ao dar meia-volta e afastar-se.
As luzes acenderam-se repentinamente, iluminando a cadeira de rodas vazia que ultrapassava a porta da cozinha. Alessa levantou-se vagarosamente, ainda tentando digerir o que estava presenciando. Deveria seguir o fantasma? Caminhou até a porta, e viu a cadeira de rodas estava no meio da sala. Se prestasse atenção na sombra da cadeira, teria visto a sombra encurvada de uma figura sobre ela.
Alessa não sentia mais medo, não mais tremia. Fora invadida por um sentimento estranho com as palavras do velho. Um sentimento fraternal.
— Você é minha neta, Alessa — disse a voz vinda da cadeira de rodas.
— Meus avós morreram — protestou ela com a voz embargada de emoção.
— Seus avós de criação, querida. Eu sou o verdadeiro pai de sua mãe. Não foi por acaso que veio parar aqui. Só você pode me libertar dessas correntes que me prendem a esse mundo.
Sua mãe um dia lhe dissera que nunca conhecera o pai. Algo naquela voz lembrava sua mãe. O fantasma falava a verdade. Cabral era seu avô.
— Como... Como posso ajudá-lo? — ela estava chorando.
— Aproxime-se, minha neta. Sente-se na cadeira.
— Sentar?
— Isso, não tenha medo.
Ela aproximou-se cautelosamente. Seu coração estava confuso e emocionado. Como sua mãe quisera conhecer o pai verdadeiro! Tocou a cadeira. Sentou-se lentamente.
Seu corpo então pareceu levar um choque. Contorceu-se na cadeira aos gritos, com os olhos repentinamente brancos.


Jéssica esperou a décima chamada do celular. Finalmente atenderam.
— Alessa?
— Oi — a voz saíra inexpressiva.
— O que houve? Estava preocupada. Por que demorou pra atender?
— Não houve nada.
— Olha — a outra começou, entusiasmada —, eu falei com o diretor do jornal e ele aceitou fazer uma reportagem especial sobre esse casarão. Como você disse, dizem que é assombrado. O velho morador daí matou a própria esposa...
— Bobagem! — interrompeu Alessa com raiva. — Ele não matou ninguém. Ninguém conhece sua verdadeira história!
— E você conhece? — surpreendeu-se Jéssica com a reação de Alessa.
— Escute com atenção, e não me interrompa.
Contou que Cabral amava muito a esposa, ao contrário do que todos achavam. E como era sozinho no mundo, só tinha a ela. Quando esta morreu, ele entrou em depressão e não suportando a solidão, apelou para a magia negra para se comunicar com a amada. Contou quais eram os passos para se fazer o ritual, e o realizara diversas vezes. Um dia, porém, iniciou o ritual, mas no meio, sofreu um derrame e ficou impossibilitado de mover-se e proferir a oração negra de encerramento e de apagar o símbolo satânico de conjura, que estava desenhado em um objeto especial para ele. Isso o amaldiçoou, pois seu espírito se tronaria sentinela eterno da abertura para o mundo dos mortos, ou seja, do objeto cujo símbolo fora desenhado. Sua babá fora morta por ter acendido velas na casa. Espíritos malignos acabaram com sua vida, enquanto o pobre Cabral mal podia mover-se. Depois de morto, ficou prisioneiro da casa. A única maneira de se libertar era se alguém com seu sangue tomasse seu lugar. Alessa então revelou ser neta de Cabral.
— Você é neta dele? Como? Alessa, pelo amor de Deus que história maluca é essa que você está me contando?
— Ele era o verdadeiro pai de minha mãe. Já tomei minha decisão, Jéssica. Eu tomarei o lugar dele. Minha mãe sempre quis conhecê-lo. Não é justo que ele fique preso pra sempre aqui. Um dia eles terão de se encontrar...
— Alessa! Pára de falar bobagem — Jéssica estava terrivelmente preocupada com a seriedade com que Alessa falava. — Você não vá fazer besteira! Você é jovem, menina. Que loucura é essa de tomar o lugar do velho?
— Escute, amiga. Se um dia você realmente gostou de mim, terá de demonstrar lealdade agora. Eu decidi e ninguém poderá me fazer mudar de idéia. Eu tenho o direito de fazer minhas escolhas e eu já decidi.
Jéssica tentou dissuadi-la às lágrimas, mas não havia jeito. Alessa estava irredutível. E a fez prometer que nunca, jamais contaria aquilo a ninguém, acontecesse o que acontecesse. Jéssica teve de concordar, chorando convulsivamente. Alessa deu um ultimo adeus:
— Obrigada, amiga. Adeus — e desligou.


Alessa estava na cadeira de rodas, com o celular na mão, mas não era ela quem falava.
Era Cabral.
Ela articulava a boca, mas falava em pânico contra a sua vontade. Estava possuída. Cabral tinha de desabafar a verdadeira história para alguém, para que esse alguém carregasse sua cruz aqui na terra e que ele não precisasse levá-la para onde iria. Segredos são coisas terríveis para se carregar no inferno. Cabral sorriu, no corpo de sua “neta”. Conseguira convencê-la de que era o avô, o que não fora difícil já que conhecera o verdadeiro pai de sua mãe no mundo dos mortos. Bastara imitá-lo. Mesmo assim, ela nunca iria aceitar trocar de lugar com ele, claro. Por isso era preciso fazer isso à força. Possuí-la. Os outros que visitaram a casa não serviam, pois eram batizados. Alessa por sorte, não era.
Era chegada a hora. Alessa sentia a morte aproximando-se, mas era um destino pior que a aguardava.
— Desculpe, criança. Você achará outro para te substituir... — e dizendo isso, agarrou a própria cabeça e girou-a com violência, quebrando o pescoço.


A professora Alessa foi enterrada e ninguém conseguiu desvendar o crime. A hipótese da polícia era o suicídio. A perícia estava investigando a cadeira de rodas onde ela fora encontrada morta. O que era estranho já que ela não era deficiente física.
Os dois peritos estavam em uma sala, analisando a cadeira de rodas. Era noite. Estavam irritados por ter de trabalhar tão tarde.
— Eu queria saber que diabos a moça fazia... — disse o mais velho, de luvas, virando a cadeira. — Ei, Bráulio, olha só isso.
— Que merda é essa?
— É um símbolo esquisito, deve ser satânico — disse o outro se benzendo, ao ver o símbolo desenhado embaixo da cadeira de rodas.
— Vamos incluir no laudo, deve ser importante.
Súbito, as luzes se apagaram.
— Caralho! Não pode dar uma chuvinha que a luz pifa!
— Calma, Brau, relaxa. Eu vou pegar as velas.

...E o símbolo levará a maldição onde quer que for levado...


Escrito por Dark Gero às 19h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A Cadeira de Rodas (parte II) Conto por Dark Gero




Jéssica tocou a campainha do casarão. Ouviu uma movimentação lá dentro, então a porta abriu-se.
— Alessa! O que houve, estava chorando? — disse abraçando a amiga.
— Oh, Jéssica, você não vai acreditar, não vai acreditar... Entra.
Jéssica entrou no casarão, admirando brevemente seu interior, mas voltou sua atenção para a amiga, que estava com os olhos vermelhos de quem chorara. Estava visivelmente abalada. Sentaram-se no sofá. Jéssica segurou-lhe as mãos, preocupada. Alessandra contou com detalhes os estranhos acontecimentos da noite anterior, do contato com os outros hóspedes e de como acordara naquela manhã.
— Foi horrível, Jessy. Não há explicação para o que ocorreu. Eu havia trancado a porta por dentro, então como... como... — ela olhava para um ponto distante, imaginando a cena com horror. — Como aquela cadeira de rodas foi parar ao lado da minha cama?
— Como? Você tem certeza de que trancou a porta realmente?
— Claro. Absoluta.
Jéssica pensou por um momento e disse, com ar inteligente:
— Algum dos outros inquilinos deve ter a chave de seu quarto e resolveu te pregar uma peça. Onde estão eles? — ela deu uma olhada ao redor.
— Quando saí de manhã não havia mais ninguém aqui.
— E a entrevista, como foi? — Jéssica mudou de assunto.
— Péssima, amiga. Não poderia ter sido pior. Estava nervosa demais, impressionada com o que ocorreu ontem. É por isso que estou tão triste...
— Calma, Alessa, calma — confortou-a a Jéssica.
Conversaram por algum tempo, então resolveram dar uma volta, para relaxar, esquecer aquilo. Passaram o dia no shopping e em outros pontos interessantes da cidade. No meio da tarde, Jéssica teve de ir. Não a convidou a ir a sua casa porque sabia que ela não aceitaria. Alessa tivera um desentendimento com seu marido Diego. Um bate-boca para defender a amiga que virou um rancor não esquecido.
Alessa despediu-se de Jéssica e voltou para a casa, para enfrentar seus demônios. Talvez se fosse bem na próxima entrevista, eles ainda a aceitassem. Estava prestes a entrar no casarão, quando uma velha senhora, da casa vizinha, chamou sua atenção.
— Ei, minha jovem!
— Hum...? — ela virou-se para a mulher.
— Você viu? Você já viu ele?
— Ele quem? De quem você está falando?
— Do velho Cabral. Você já viu ele?
— Não, não senhora. Quem é Cabral?
— E a mulher dele? Você viu?
— Desculpe, não vi nenhum deles, não sei quem são.
¬— O Cabral era metido com o diabo, mocinha. Sacrificou a própria mulher em nome de Satã. Matou a babá mesmo estando com derrame, moribundo — benzeu-se. — Tome cuidado, pode ser a próxima.
A mulher virou-se, deixando Alessandra pasma. Entrou no casarão, sentando-se desconfortavelmente no sofá. Aquele lugar lhe dava arrepios. Olhou para o compartimento abaixo da escada, onde havia recolocado a cadeira de rodas. Fechou os olhos, rezando para que nada bizarro voltasse a lhe acontecer.
As palavras da vizinha maluca deixaram-na intrigada. Talvez o casarão tivesse suas lendas, seus fantasmas no imaginário do povo. Não tinha como saber. O atual dono da casa só a comprara por causa do preço ridículo, mas raramente pisava lá. Dos outros inquilinos ela pouco sabia. Ao pensar neles sentiu uma repentina raiva. Como ousavam tentar assustá-la daquela maneira?
Ouviu um trovão.
Sentiu um arrepio só de imaginar ficar na escuridão novamente. Providenciou logo algo para comer, para não precisar ter que ficar descendo e subindo aquelas desagradáveis escadas. Só então prestou atenção na pequena biblioteca. Andou até ela, admirando aquelas três estantes de livros velhos e empoeirados. Havia um livro de capa preta e marrom, com letras vermelhas, caído. Agachou-se e o pegou. O título a fez arrepiar-se: RITOS E MAGIAS NEGRAS.
Outro trovão ribombou no céu.
Uma tempestade começou a cair. Era como se o dia anterior estivesse se repetindo, o que era suficiente para apavorá-la. Resolveu ficar na biblioteca, assim poderia ver quando os outros inquilinos entrassem, para não ser pega de surpresa novamente. Não estava tão escuro, mas apanhou algumas velas e acendeu duas sobre a escrivaninha da biblioteca, pois o interruptor estava queimado. Deixou a porta aberta. Folheou o livro que encontrara caído. Pura e simples curiosidade. Na situação em que se encontrava, a última coisa que deveria fazer era folhear um livro com um título como aquele. As gravuras eram bizarras e satânicas, ilustravam rituais de magia negra e o texto era um manual de como realizá-los. Um deles lhe chamou a atenção: Como conjurar os mortos. O ritual era simples de se realizar, mas era assustadora a idéia de se invocar pessoas que já morreram. Os passos a seguir eram: 1. Desenhar um símbolo satânico no objeto mais próximo e precioso da pessoa (o símbolo estava desenhado no livro); 2. Fazer uma oração negra de conjura (também citada no livro); 3. Acender uma vela, tendo em mente a pessoa que se deseja conjurar, caso contrário o espírito mais próximo será conjurado; 4. O espírito invocado ficará materializado enquanto a vela durar. Caso a pessoa queira encurtar a permanência do espírito, basta apagar a vela. 5. O encerramento consiste em apagar a vela, ou esperar que se esvaia, fazer a oração negra de encerramento e apagar o símbolo desenhado.
Caso esse procedimento não fosse feito, uma grande quantidade de magia negra se concentraria no local em que o símbolo fosse desenhado, o que poderia causar um distúrbio no mundo dos mortos, então cada vela acesa no domínio do objeto conjuraria um espírito qualquer, geralmente um atormentado ou vingativo. A alma do conjurador se tornaria então sentinela eterna do objeto. E o símbolo levará a maldição onde quer que for levado.
Leu sobre os espíritos atormentados que o livro mencionara. Segundo ele, tais espíritos, por não terem paz após a morte, ficam extremamente confusos quando estão de volta entre os vivos e descontam suas mágoas e raivas neles. Costumam confundir vida e morte, vivos e mortos. Algumas vezes pensam estar vivos e apenas sofrem. São pouco comunicativos e muito violentos.
Alessa estava tão fascinada quando assustada com aquelas palavras. Embora fosse muito cética, o livro parecia exercer-lhe uma veracidade absurda. Resolveu deixá-lo de mão e subir para seu quarto, mas quando se levantou da cadeira, teve um súbito susto.
Havia um homem entre as estantes, olhando para ela.
Arrepiou-se por completo. Não só pela inesperada visão do estranho, mas por causa de sua expressão... Ele a olhava como se estivesse bravo.
¬— Q-Quem... Quem é você? ¬— perguntou com a voz trêmula, embargada de pavor.
Não houve resposta.
¬Ela afastou-se da escrivaninha, mas o homem nem se moveu, nem mesmo tirou os olhos dos dela. Há quanto tempo ele estivera ali? Talvez fosse um dos hóspedes, que já estava na biblioteca quando ela chegou, mas por que não dissera nada? Por que não dizia nada? Por que a olhava de forma tão furiosa? Era assustador!
¬— Por que não diz nada? — conseguiu perguntar.
O homem nem se moveu. E se fosse um ladrão?
¬— Meu nome é Paulo ¬¬— disse o homem, finalmente.
¬— Paulo? Você também mora aqui? ¬— tentava disfarçar o nervosismo, mas sua voz a denunciava.
¬— Não ¬— disse secamente.
Claro. Nenhum deles morava ali, iam até o casarão apenas casualmente. Pergunta idiota.
Ele continuava com o olhar bravo. Alessa não entendia o motivo. Talvez ela o estivesse incomodando.
¬— Você quer ficar sozinho?
¬— Quem é você? ¬— foi a vez de ele perguntar.
Então era isso. Ela não se apresentara em momento algum. Ela era a estranha na casa, Por isso ele estava bravo.
¬— Eu sou Alessandra, sou hóspede da casa como você. Desculpe-me não ter me apresentado antes, e...
Seu celular tocou.
Aproveitou essa desculpa para afastar-se do estranho. Saiu da biblioteca sem dizer nada ao homem. Atendeu o celular, nervosa. Era o dono da casa, um velho amigo de sua mãe. Perguntou como fora na entrevista e o que estava achando da casa. Ela mentiu sobre a casa, mas não omitiu o desastre que fora a entrevista.
— Lamento, Alessandra. Deve ter ficado nervosa por passar esses dias sozinha nesse velho casarão.
— Não estou sozinha. Tem um parente seu aqui. Ontem havia dois, e...
— Do que você está falando? Fora você, apenas meus dois sobrinhos e minha cunhada têm a chave da casa. E eles vieram jantar comigo hoje. Estão aqui na minha frente!
Alessa sentiu o coração gelar.
Estava pálida, trêmula, apavorada. Virou-se num impulso para trás. O homem estava parado diante da escrivaninha, com o mesmo olhar furioso. Então, de repente, abriu um bizarro e macabro sorriso, que distorcia seu rosto de uma forma assombrosa.
Caminhou na direção de Alessa.
Ela fechou a porta, desesperada, com as mãos trêmulas. Procurou a chave no molho de chaves, mas estava nervosa demais para acertar. O molho caiu no chão. Ela abaixou-se em pânico para agarrá-lo, enquanto os passos aproximavam-se da porta. Trancou-a. A maçaneta ficou girando furiosamente. Respirava ofegante, com o corpo todo tiritando. Virou-se, seguindo o instinto de sair da casa.
Gritou.
Na porta principal, de olhos fixos nela, estava a mesma mulher que vira chorando na noite anterior. Mas ela não mais chorava. Havia uma mancha vermelha na blusa, na altura do peito. Estava com uma faca na mão, suja de sangue.
— Viu o que eu fiz? — disse com um tom infantil.
Alessa se viu sem alternativa a não ser correr para a cozinha e trancar-se. O corpo arfava, transbordando adrenalina.
Discou o número de sua amiga. Esperou impaciente. Estava ocupado. Retornou a ligação do dono da casa. Nada. Três violentas batidas na porta a fizeram afastar-se com o coração na boca. As pernas estavam bambas; ela perdia a coordenação motora.
¬¬— Abre a porta, querida ¬— disse a voz suave da moça que há pouco vira com a faca na mão.
¬— Não! Não... por favor... ¬— a voz saía apagada, quase inaudível.
¬¬— Abre a porra dessa porta! ¬— explodiu ela.
Alessa começou a chorar de medo, como nunca antes.
¬— Sabe o que me fez fazer com o bebê, mãe? Eu matei ele! Fui dar banho nele e o afoguei. Eu afoguei o coitado, mãe! E sabe o que eu fiz depois? Adivinha, sua vaca! Adivinha!
Alessa não entendia por que a mulher a estava chamando de mãe, mas sua mente estava congestionada demais para preocupar-se com esse detalhe.
¬— Eu enfiei a faca no peito, mãe. Eu me matei, sua prostituta! Eu me matei! Tá feliz? Eu tô morta!
Um fantasma? Era um deles que batia na porta? Eram eles que ela vira? De repente, o que lera no velho livro começava a fazer sentido. Um bizarro e assombroso sentido.
...tais espíritos, por não terem paz após a morte, ficam extremamente confusos quando estão de volta entre os vivos e descontam suas mágoas e raivas neles...
Alessandra começou a rezar, de forma tão desesperada que tropeçava nas palavras e nem ao menos prestava atenção no que proferia.
...costumam confundir vida e morte, vivos e mortos...
Os trovões começaram a ficar mais violentos, e Alessa temeu que a energia elétrica fosse embora. A cozinha era totalmente fechada e forrada, o que dificultava a entrada de luz. Não tinha acendido as lâmpadas ainda. Onde era a droga do interruptor? Encontrou-o e o ligou. Procurou o local onde encontrara velas na noite anterior. Era apavorante a idéia de ficar no escuro com aqueles demônios.
— Mããe!
Voltou a rezar, de olhos fechados.
— Aparece, sua vagabunda!
Os trovões pareciam mais altos, a tempestade parecia mais violenta. Ninguém ouviria seus gritos. Acendeu uma das velas e a pôs sobre uma mesa. Depois acendeu outra com a chama da primeira, e outra... Devido ao nervosismo, tinha dificuldade em fixá-las na mesa. Em pouco tempo havia acendido quase dois maços de velas.
Foi quando as luzes das lâmpadas se apagaram ao som de um estrondoso trovão.
Não ficara no escuro graças às velas. A suicida ensangüentada parara de gritar lá fora. Alessa continuou com suas preces, de olhos fechados. Quando os abriu, foi dominada pelo terror.
Na penumbra, vários rostos a observavam.
Rostos medonhos. Rostos de pessoas mortas.
Todos de olhos fixos na figura apavorada de Alessa. Estava cercada. As luzes bruxuleantes tornavam ainda mais fantasmagórico o macabro ambiente. Começaram a aproximar-se. Uma das velas tombou, derrubando outra e ambas apagaram-se ao se chocarem com o chão.
Ao mesmo tempo dois fantasmas desapareceram.
Simplesmente esvaíram-se.
A mente apavorada de Alessa então começou a raciocinar de forma veloz.
...então cada vela acesa no domínio do objeto conjuraria um espírito qualquer, geralmente um atormentado ou vingativo...
Alessa agarrou a mesa e virou-a violentamente.
...Caso a pessoa queira encurtar a permanência do espírito, basta apagar a vela...
Mergulhou na terrível escuridão.


(Continua...)



Escrito por Dark Gero às 19h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

28/09/2008


ESPANTALHO (Conto por I. N. Guimarães / Dark Gero)







O carro despencou ao longo da ribanceira, indo chocar-se com as rochas vários metros abaixo, provocando uma deslumbrante explosão. Os quatro ficaram vendo a cena de cima, tomando cuidado para não caírem. O de barba, que segurava um rifle, foi o primeiro a afasta-se da beira do precipício.
–– Vamos logo, está escurecendo. Temos que encontrar um local pra passar a noite.
–– O que agente faz com esse cara, Abreu? –– perguntou o que aparentava ser o mais jovem, de no máximo vinte e cinco anos, segurando uma bolsa de viagem.
–– Vamos decidir depois. Podemos precisar dele –– respondeu o de barba, adentrando no mato.
Os outros o seguiram. Um estava de mãos atadas e boca amordaçada. Havia dois hematomas no rosto, um próximo ao olho, outro no canto da boca. Atrás de todos vinha uma loira segurando uma pistola. Era atraente, perigosamente atraente. Os quatro afastaram-se o máximo possível da estradinha que dava na ribanceira. Embrenharam-se no mato, caminhando com dificuldade. O céu começava a escurecer, dando espaço às primeiras estrelas, trazendo-os novas preocupações, principalmente ao amordaçado. Sabia que não viveria até o amanhecer.
Chegaram ao alto de um morro. O de barba, Abreu, sorriu ao avistar uma casa no meio de um milharal a vários metros à frente.
–– Olha lá, Felipe –– ele disse, apontando. –– Lá está, tem mesmo uma casa no meio do milharal. É isolado. Perfeito!
Felipe sorriu, abraçando a loira.
–– Conseguimos gata! Ta tudo dando certo! Eu te disse que daria. Não foi fácil?
–– Estamos ricos, amor. Ricos!
O amordaçado arrepiou-se, sentindo o pânico crescendo dentro de si. Por dois motivos: estavam falando os nomes uns dos outros e mostrando os rostos, sinal de que não tinham a intenção de libertá-lo; e sabia histórias terríveis sobre aquele casebre do milharal. Aquele lugar era maldito, era um suicídio profaná-lo...
Os três notaram a agitação do refém. Ele suava frio e balançava a cabeça grunindo, de olhos arregalados.
–– O que deu nesse cretino? –– perguntou a loira, irritada com o comportamento do dono do carro que acabaram de se livrar.
Abreu deu um violento soco no homem, fazendo-o cair desacordado.
–– Por que fez isso, Abreu? Tá louco?
–– Ele tava me dando nos nervos. Deve ter dado um acesso de pânico.
–– É, mas agora vai ter de carregar ele. Vamos precisar de um refém caso a polícia apareça.
–– Relaxa Nina –– disse o barbudo, dirigindo-se à loira. –– Eu carrego esse verme, não se preocupe.
Abreu colocou o corpo sobre o ombro a contragosto, pois faltava um bocado para chegar à casa do milharal. Tinha de parar de agir por impulso, pensou, ou cedo ou tarde iria se ferrar.
Depois de alguns minutos, estavam diante da cerca de arame farpado que rodeava o milharal. Abreu levantou o refém, soltando-o sobre o arame. O corpo caiu rolando pesadamente do outro lado. Os dois bandidos riram. A loira repreendeu-os:
–– Vão acabar matando o traste antes do combinado, seus babacas!
–– Essa quedinha não matou ele, Nina –– defendeu-se Abreu.
–– Ele é forte, agüenta –– debochou Felipe, passando entre o arame.
Adentraram o milharal. Estava meio ressecado, com as espigas mortas. Fosse quem fosse o proprietário, estava falido se dependesse daquele milho. Haviam alguns túmulos espalhados em algumas partes, feitos de montes de terra e cruzes improvisadas. Deviam ser dos familiares... Nina acendeu uma lanterna que trazia consigo. O céu havia escurecido totalmente. Uma brisa fria arrepiou os bandidos. Uma sensação de desconforto tomou conta deles. Não comentaram nada uns com os outros. Eram orgulhosos demais para isso.
A casa.
Era um velho casebre, não muito grande, mas bem construído. Tinha uma varanda, onde uma cadeira de balanço movia-se em um vaivém ao sabor do vento. Não havia sinal de luz na casa. Ou não havia energia elétrica, ou estavam dormindo, ou...
–– Será que está abandonada?
–– Não duvido, Nina. Com o estado desse milho, eu não... –– virou-se de repente com o rifle na direção do milharal. Sorriu em seguida.
–– Há, há, há! Pensei que fosse alguém...
Todos olharam na direção apontada pelo rifle. Nina arrepiou-se. Ali, amarrado a uma cruz de uns três metros fincada ao chão, estava aquela figura de braços abertos.
Um espantalho.
Estava distante, mas pelas roupas e pela palha saindo das mangas e das pernas da calça, não havia dúvidas. Felipe aproximou-se para ter certeza. Levantou a cara perto da cruz, fazendo uma careta. O rosto era horrível! Sob o chapéu de palha, escondia-se uma mascara com feições distorcidas. Uma boca torta e costurada por um arame em um dos cantos, que estava rasgado. Os olhos eram fundos, apenas as órbitas escuras. Pôde jurar vira vermes mexendo-se lá dentro. O nariz era distorcido, repuxado para um lado, costurado a arame, também. Era repugnante. Quem quer que o colocara ali, queria mesmo assustar os corvos.
Felipe levou a mão ao nariz, olhando instintivamente para os lados. Um cheiro forte o assaltara. Era algo morto. Carniça. Devia ser de algum animal por perto. Afastou-se indo se unir aos outros bandidos e ao refém.
–– É só um espantalho feioso rodeado de carniça. Vamos entrar logo nessa casa.
A porta estava aberta, encostada apenas.
Estranharam.


● ● ●


Ele acordou, mas continuava na escuridão; seus olhos abertos nada enxergavam. Moveu o corpo, percebendo estar preso em um cubículo de madeira. Notou que agora os pés estavam amarrados. Continuava amordaçado, totalmente imóvel. Estava sentado naquela posição desconfortável. Arrepiou-se. Santo Deus! Será que havia sido enterrado vivo, ou coisa parecida? Não... havia ar ali dentro, vindo de alguma fresta. Onde diabos estava? Sentiu o rosto doer; a pancada do soco fora forte demais.
Ouviu passos.
Eram mais de duas pessoas. Seriam os bandidos? Resolveu ficar quieto, ou poderiam querer desacordá-lo de novo. Os passos afastaram-se, depois se aproximaram novamente. Espalharam-se, reuniram-se. Estranho... Por que não estavam com a usual alegria de quando o seqüestraram para usar o seu carro no roubo do banco? Ouviu passos de uma pessoa que se aproximava do local onde estava enclausurado.
Bateram.
Três vezes, como se bate em uma porta esperando ser atendido. Ele não responderia. Estava confuso e assustado, mas sabia do que aquele barbudo e aquele casal eram capazes. Ouviu todos os passos seguindo em uma mesma direção, depois um abrir e fechar de portas.
Silêncio.
Teriam ido embora? E se o abandonassem lá? Morreria com certeza. Começou a debater-se, tentar chamar a atenção. Como não obteve nenhuma resposta, começou a rezar. Rezar para sair vivo daquela prisão de madeira; rezar para ser encontrado e salvo; rezar para que as lendas sobre aquele local, não fossem verdadeiras.
As lendas.
Talvez não passassem de boatos, mas assustavam. Faziam qualquer um dar uma volta enorme, só para não atravessar aquele milharal. Era um homem supersticioso que acreditava naquelas histórias macabras... Diziam que um velho, que morara ali, havia sumido sem deixar rastros. Umas crianças que costumava pular a cerca para roubar as espigas de milho do pobre, ficaram traumatizadas ao verem o espantalho saltar da cruz e partir atrás delas. O pai de uma delas, vendo o estado em que se encontrava o filho, voltou armado ao local com o garoto, apontou-lhe o espantalho na cruz e deu três tiros com a sua espingarda, dizendo que aquilo era apenas um boneco com enxerto de palha. O homem não contou ao filho, mas comentou com os amigos que jurava que ouvira um gemido de dor quando o boneco caíra da cruz. O garoto e os seus colegas nunca mais foram roubar as espigas de milho. O velho também nunca mais foi visto nas redondezas, mas o espantalho ainda continuava no mesmo local.
Por um tempo, algumas pessoas que passavam próximas do milharal se queixavam do mau cheiro. Os mais curiosos que tentavam descobrir o que era, saíam assombrados. Houve rumores de que algumas pessoas entraram no milharal à noite e nunca mais foram vistas. Dizem que o velho reencarnara no espantalho e enterrava os corpos, mas ninguém tinha coragem suficiente para conferir.
Continuou rezando, mentalmente, claro. Mas no fundo sabia que nunca sairia vivo dali...


● ● ●


Abreu jogou o pesado corpo no chão, olhando em seguida para a sala da casa. Era modesta, mas visualmente confortável. Estava coberta de poeira e teias de aranha, mas com os móveis devidamente colocados.
–– Será que não tem ninguém mesmo?
–– Olha o estado disto, Abreu. Claro que não tem ninguém. Embora os móveis...
Felipe abraçou Nina por trás, beijando-lhe o pescoço. Ela deu um sorriso de satisfação, mas afastou-se. Queria escolher o quarto onde passaria a noite. Vasculharam a casa, descobriram que haviam dois com cama. Uma delas de casal. Abreu, é claro, ficaria com a de solteiro. O casal ficaria no outro. Abreu voltou à sala, constatando que o refém ainda estava desacordado.
–– O que fazer com ele? –– perguntou coçando a barba preta.
Nina viu um móvel de madeira de um metro, com porta dupla. Abriu-o. Estava cheio de livros. Jogou todos para fora e apontou para dentro, sorrindo.
–– Este será o cômodo dele.
Os bandidos riram. Eram impiedosos e cruéis. Era a primeira vez que Felipe e Nina roubavam um banco, mas Abreu já era veterano. Convidara o primo e sua namorada para o assalto, usando o carro roubado do refém. Em breve estariam longe dali.
Puseram o refém dentro do móvel, amarrando antes os seus pés. Ele ficou com as pernas encolhidas como se estivesse sentado, a cabeça pendida para frente, completamente imóvel. Havia frestas na parte de trás. Não morreria sem ar.
–– Por que colocar ele aí?
–– Ora, amor, ele pode se soltar e fazer muito barulho à noite. E nós precisamos descansar um pouco antes de seguir viagem pela manhã. Vamos trancar e encostar outro móvel.
Os três riram. Comeram um lanche que estava em um dos compartimentos da bolsa em que estava o dinheiro do roubo. Sentaram à mesa e conversaram sobre o resto do plano que deviam seguir...


No quarto, com a porta trancada. Felipe estava deitado, segurando uma lanterna, iluminando Nina à sua frente, que fazia um lento streaptease. Tinha os seios fartos, um corpo escultural. Felipe sorriu malicioso ao vê-la baixando a última peça, a calçinha. Partiu para cima da cama beijando-o. Baixou para o pescoço. Um pouco mais, para a barriga. Continuou descendo o beijo...
Bateram à porta.
Os dois olharam na direção dela, sobressaltados. A voz de Abreu se fez ouvir:
–– Felipe, eu ouvi algo lá fora. Vou verificar o que é. Fiquem atentos, pode ser a polícia.
Os passos afastaram-se. Seria a polícia lá fora, ou o dono da casa? Nina acalmou-se. Abreu estava armado com um rifle. Aliás, poderia ser só um animal ou coisa parecida. Resolveram continuar o que estavam fazendo.


Felipe adormecera. Nina levantou nua, indo verificar a hora no celular que ela deixara na penteadeira. Era muito tarde. Será que Abreu havia voltado? Vestiu-se e saiu do quarto com a lanterna. Foi até o quarto onde Abreu dormiria. Vazio. Olhou todos os cômodos. Nada de Abreu. Voltou ao quarto, e foi logo acordando Felipe.
–– Felipe, Felipe!
–– O que foi? –– respondeu sonolento.
–– O Abreu não voltou.
–– Ainda? –– levantou-se. Constatou que a bolsa do dinheiro estava ali, guardada. O que diabos houvera com o barbudo?
Felipe vestiu-se, pegou a pistola de Nina.
–– Espere aqui, eu vou atrás dele. Deve estar fumando por aí ou vigiando a casa.
Beijaram-se. Felipe saiu da casa e nina trancou a porta. Esperou impaciente. Acendeu um cigarro. Quando este se extinguiu, abriu uma das janelas, preocupada. Não viu nada além do milharal imerso nas trevas da noite. Súbito, assustou-se. O coração acelerou e um calafrio percorreu a espinha.
A cruz... a cruz do espantalho...
... estava sem o espantalho.

Felipe adentrou o milharal gritando pelo nome do primo. Já havia rodeado a casa e nada. Começou a se preocupar, mas não conseguia imaginar o que houvera com Abreu.
Estacou. Uma brisa o fez arrepia-se. Movia o milharal de forma fantasmagórica, assustadora. Empunhava a arma, mas o medo era constante. Olhava para os lados, cauteloso. Foi quando...
...esbarrou em algo.
Algo mole, como um... Apurou a visão e abaixou-se para enxergar melhor. Deu um salto para trás, apavorado. Era um corpo. O corpo do...
Não concluiu o pensamento. Uma lâmina perfurou suas costas, atravessando-o. Seu corpo caiu pesadamente. A foice foi retirada com violência do corpo imóvel e sem vida, do bandido.
Felipe foi arrastado vagarosamente.


Nina estava em pânico. Se não fosse o refém preso no móvel, ela estaria sozinha. Nem sinal de Abreu ou Felipe. Nem sinal do espantalho. Voltou para o quarto, nervosa. Sentou-se na cama. Só então notou uma carta sobre o criado-mudo. A curiosidade a fez abrir o envelope, que não havia sido colado ainda. Leu-a. Fora escrita por um velho, e seria enviada ao seu neto, que morava em uma capital distante. Nela, ele falava da colheita do milho, da saúde e de uma travessura que faria com uns garotos que invadiam o seu terreno para roubar o seu milho. Iria verti-se de espantalho para assustá-las, como um daqueles filmes de terror americano.
Nina largou a carta. Ouviu um barulho na sala. Seria Felipe ou Abreu voltando? Andou cautelosa até a porta. Estava desarmada, indefesa. E se fossem outros bandidos? Sorriu nervosa. Ladrão que rouba ladrão...
Virou a lanterna para o corredor. Voltara a ouvir o barulho. Eram... Passos? Ficou parada, trêmula.
–– Felipe?
Sem resposta.
–– A-Abreu...?
Nina andou até a sala. Vasculhou com a lanterna todo o cômodo, antes imerso na escuridão. Deu meia-volta. Gritou. Tentou correr, mas um golpe desferido por aquela figura derrubou-a no chão. Um golpe de foice, que já estava suja de sangue. Seus olhos começaram a escurecer, pouco antes de receber outro golpe, no pescoço.

Faltavam três horas para amanhecer. Estava suando, exausto. Jogou a última pá de terra e contemplou os dois túmulos que acabara de criar. Dois montes de terra. Faltava algo. Deu uma volta e encontrou alguns pedaços de pau. Amarrou-os em forma de cruz com tiras de pano que havia na varanda da casa. Voltou aos túmulos. Fincou uma cruz em cada um, ambos diante da cruz maior...
Sorriu.
Estava rico. Agora toda a grana do assalto seria sua. Era um gênio, pensou. Armara tudo: o local para livra-se do carro, o milharal que ninguém ousava invadir... Povo bobo e supersticioso. Retirara o espantalho, que ao que constatou, era um cadáver. Estava fétido. Seria a lenda verdade? Quem colocara um cadáver no lugar do espantalho? Lembrou do susto de Felipe ao esbarrar no corpo do espantalho, pouco antes de assassiná-lo; e do rostinho de Nina ao vê-lo na casa com a foice com que matara primo...
Abreu sorriu. Livrara-se das provas, limpara o sangue e enterrara os corpos. O refém morreria no móvel, não precisava se preocupar. Colocou a bolsa de dinheiro no ombro. Voltou-se para onde deixara o espantalho, mas...
... ele não estava! Olhou ao redor, realmente assustado. O feitiço voltara contra o feiticeiro. O vento balançava o milharal, deixando o barbudo ainda mais nervoso. Virou-se.
Deu o maior grito de sua vida. E o último. Ali, parado, com a cabeça pendida, com o canto da boca e o nariz costurado e distorcido, com o chapéu de palha sobre a máscara que cobria o rosto cadavérico, estava o espantalho, segurando a foice assassina. O espantalho que julgara ser só um simples cadáver. O espantalho que tiraria sua vida... Abreu viu-o levantar a foice. Estava sem reação. Nem mesmo moveu-se quando a lâmina desceu com violência em seu corpo.


● ● ●


Os policiais invadiram a cerca de arame farpado empunhando seus revólveres. Seguiram os rastros dos assaltantes de banco e chegaram até ali, naquele milharal abandonado. Logo chegaram na casa. A porta estava entreaberta. Os três entraram. Eram oito da manhã, fazia um certo frio. Queriam achar logo os cretinos; passaram a madrugada inteira atrás deles.
Reuniram-se na sala. Em silêncio,comunicando-se apenas com sinais, espalharam-se pela casa, vasculharam cada cômodo. Não encontraram ninguém. Aquele seria o esconderijo perfeito, mas pelo visto, os ladrões não pensaram o mesmo. Alias, não era tão perfeito assim, se eles tinham encontrado... Um dos policiais pensou ter ouvido um barulho vindo de um móvel de mais ou menos um metro, de madeira, com porta dupla. Havia um outro menor encostado, com vários livros em cima. Estranhou a posição dos móveis. Andou até lá e bateu três vezes consecutivas. Como não houvera resposta, achou que poderiam ser ratos. Fez um sinal para os outros saírem.
Do lado de fora, um dos policiais viu aquele espantalho horrendo preso a uma cruz. Mas em frente, outra coisa também chamou a sua atenção: aqueles três túmulos, cada um com uma cruz fincada. Benzeu-se. Quem estaria naquelas três covas?


FIM



Escrito por Dark Gero às 20h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A Cadeira De Rodas (Conto de Dark Gero)




A jornalista apertou forte o cabo do guarda-chuva que segurava. O coração batia acelerado, embora o que sentisse por dentro fosse algo bem mais nostálgico que o medo. Estava parada a uma certa distância do aglomerado de pessoas que se fazia diante do casarão de dois andares, o maior daquela curta rua. Os carros de polícia estavam ao redor da construção. Alguns policiais tentavam afastar os curiosos, mas não precisavam ter muito trabalho, pois os mais supersticiosos queriam distância daquela casa e aproximavam-se apenas para terem certeza de que a morte havia se abatido novamente sobre aquele endereço. Dessa vez, de forma ainda mais sinistra e misteriosa.
Não estava chovendo, mas a garoa ameaçava uma nova tempestade a qualquer momento, por isso, todos se mantinham preparados com seus guarda-chuvas, agasalhos ou capas. Um policial alto, o que havia arrombado a portado casarão, avisava para que não tocassem no corpo até que a perícia chegasse.
O corpo...
A cena mais sinistra e inexplicável que o policial já vira em sua carreira. Ali, no meio da espaçosa sala, jazia o corpo de uma jovem mulher sobre uma cadeira de rodas. Estava sentada, com o corpo caído para um lado. O pescoço pendido de forma estranha, como se estivesse quebrado. Haviam vasculhado toda a casa, que estava totalmente trancada por dentro, desde as portas até a menor janela, com ferrolhos. Aparentemente, quem quer que houvesse assassinado a jovem, ainda estava dentro da casa. Porém, essa hipótese foi logo descartada após uma revista por todos os cômodos. A alternativa lógica que restara era que ela havia se suicidado. Mas como, e porque sobre a velha cadeira de rodas?
O que intrigava a polícia arrepiava os moradores vizinhos que presenciavam a cena do crime naquele momento. Não fora nenhum louco assassino, tampouco um suicídio. Todos sabiam a quem culpar: o velho falecido morador da casa, o sinistro senhor Cabral. O idoso macabro que ali morava, realizando rituais satânicos. Alguns diziam que ele matara a própria esposa em sacrifício as trevas, mas o fato que realmente assombrava os moradores da região, fazendo-os temer e odiar o velho, foi que a babá paga para cuidar dele após seu derrame, que o deixou paralítico foi encontrada morta há um ano atrás ao seu lado, naquelas mesmas circunstâncias: Portas e janelas trancadas por dentro. Como o velho teria assassinado a jovem, já que era paralítico, nem mesmo falava? E por que agora, após sua morte, aquela outra pobre infeliz fora parar morta em sua cadeira de rodas?
Eram esses e outros rumores que circulavam entre a pequena multidão na frente da residência. O velho Cabral e sua magia negra, os gritos que ele dera nos dias antes de sua morte, choro da velha esposa dele altas horas da noite... Mas a jornalista estava alheia a todos esses comentários. Ela sabia a verdadeira história do velho Cabral e o que acontecera com sua amiga, morta na cadeira de rodas. Detalhes mórbidos e apavorantes, que as mentes perversas e fofoqueiras seriam incapazes de entender. Ela sabia, porque a vítima havia lhe contado pouco antes da tragédia. Ela soube dos dois dias que sua amiga passara na casa, dos terríveis acontecimentos que se sucederam, mas que ninguém conheceria. Não. Porque ela prometera guardar segredo, prometera enterrar para si todo o terror que lhe fora relatado por sua melhor amiga. A única coisa que pôde fazer foi chamar a polícia após o ato consumado.
Limpou o rosto com as costas das mãos, enxugando as lágrimas. Voltou para seu carro, estacionado logo adiante. Não estava ali a trabalho, viera apenas dar um último adeus a Alessa...
... que continuava ali, morta,pendida de lado sobre a velha cadeira de rodas...


● ● ●


Alessandra discou o número e ficou esperando ansiosa que atendessem logo. Atenderam.
–– Alô?
–– Alô, Jéssica?
–– Alessa! Como vai amiga?
–– Melhor que nunca, Jessy. Adivinha só... – fez um gemido de suspense, esperando a reação da outra.
–– O que é maluca? Fala logo!
–– Eu consegui menina, eu passei no concurso pra professor aí na tua cidade. Vou dar aula na Universidade Federal!
–– Sério? Parabéns, amiga! Você merece, merece mesmo!
–– Aiiii, eu to Tão ansiosa... Dar aula na Universidade!
–– Estou orgulhosa Alessa. Você, tão novinha, dando aula pros marmanjos da graduação! Finalmente você vai sair dos colégios escrotos daí, né.
–– Não, escrotos não Jessy. Até que eu gosto daqui, mas a universidade... Na capital...
–– Quando você começa?
–– Eu ainda vou passar por algumas entrevistas, coisa rápida. Enquanto isso, eu vou ficar numa casa alugada, dividindo com umas três pessoas que nunca vi na vida... Mas é só até as entrevistas, depois eu compro uma casa por aí.
–– Parabéns, parabéns mesmo Alessa. Vinte e poucos anos e lecionando na Universidade... Boa sorte nas entrevistas, tá? Eu te chamaria pra ficar aqui em casa, se você não fosse cismada com o Diego...
–– Esse seu marido é que não me suporta.
–– Azar o dele...
–– É.
As duas riram e conversaram mais um pouco antes que Alessandra desligasse. Combinaram de se encontrar no dia seguinte, o da entrevista. Já havia chegado a cidade e dirigia-se para a morada temporária, em um táxi. Um amigo de sua mãe era o atual dono do casarão onde ela ficaria. Alugara barato, mas advertindo que alguns parentes seus, andavam na casa, de vez em quando, sem aviso, pois cada um tinha a sua chave. Avisou-a também de que não eram comunicativos e até um pouco arrogantes, mas que não mordiam nem nada parecido. Era a oportunidade de sua vida! Ingressar tão jovem como professora na Universidade era tão magnífico quanto assustador. E pensar que isso só dependia de algumas entrevistas...
Olhou para o relógio de pulso, fazendo uma careta ao ver que estava anoitecendo tão rápido. Estava com a bagagem ao seu lado, no banco traseiro do táxi, a chave e algum dinheiro no bolso. E... não havia esquecido nada. Exceto um guarda-chuva.
Lá fora, trovões ameaçavam uma noite de tempestade. Benzeu-se, rezado para que tudo desse certo...


Alessandra teve de correr do táxi até a varanda do casarão para que suas coisas não se molhassem. Como era previsível, a chuva despencou do céu, acompanhada de relâmpagos e trovões. Girou a chave na maçaneta, entrando e trancando a porta em seguida. Procurou um interruptor na parede e acendeu a luz.
Era uma bela sala.
Antiga, mas bela. Havia um grande tapete no centro, alguns móveis de carvalho e mogno e quadros nas paredes. Alguns eram de paisagens, outros, retratavam um casal com vestes antigas. Em uma das fotos, no centro da sala, estava o casal lado a lado, posando da região dos ombros pra cima. Deviam ser os ex-moradores, pensou.
À esquerda, uma escada dava acesso ao andar de cima. Resolveu explorar primeiro o térreo. Havia uma cozinha, três quartos, dois banheiros, uma mini-biblioteca, uma sala de jantar e um quintal atrás da casa, um espaço relativamente grande, mas difícil de vislumbrar naquela chuva torrencial. Voltou à sala e esparramou-se em um sofá, esticando-se toda. Ficara exausta com a viagem.

Até então estava sozinha naquela casa, pensava. Era melhor guardar as suas coisas no andar de cima, onde dormiria. Dirigiu-se às escadas e subiu alguns degraus.
Parou.
Um barulho abaixo dela.
Inclinou-se sobre o corrimão para descobrir o que era. Sob a escada havia um compartimento com porta, que estava com um ruído estranho... como algo batendo lá dentro. Alessa sorriu, imaginando que espécie de rato safado estava tentando assusta-la bancando o fantasma.
Continuou a subir. O barulho cessou.
No andar superior, Alessandra procurou logo por seu quarto, onde descarregou as bolsas, estirando-se na confortável cama de casal. Era uma cama branca, com uma cobertura, como as que se vê em filmes de época. Não demorou muito para que cochilasse, entregue ao cansaço.

Acordou três horas depois. Consultou o relógio. Santo Deus, alguém poderia ter chegado, eram mais de nove! Ao levantar da cama, sentiu um leve arrepio... seu ombro estava um pouco dormente,como se algo houvesse estado sobre ele. Afagou-o com a mão, intrigada, olhando para o lado da cama onde não deitara. Afinal, só havia ela na cama, mas ninguém...
Ainda chovia lá fora, ainda mais forte. Andou até a porta do quarto, mas teve a idéia de fazer algo para comer. Trouxera comida na bagagem. Virou-se para pegar.
Deu um grito.
A cama, de onde acabara de se levantar, estava arrumada! Como era possível? Será que tinha arrumado sem perceber, ou não bagunçara tanto ao deitar? Devia ser algo assim, com certeza. Era o que ela esperava...
Saiu do quarto, esquecendo-se da fome. Começou a descer o lance de escadas. Sobressaltou-se.
O barulho, de novo!
Abaixo da escada, como algo batendo para sair. Não era o vento nem ratos, já que as pancadas eram fortes demais para os roedores. Era mais, para algo repetitivo, como um galho batendo em uma janela. Desceu os degraus restantes, dando a volta até a portinha retangular. O que diabos seria? Girou a maçaneta.
O cubículo, abaixo da escada, tinha apenas um objeto aparente...
Uma cadeira de rodas.

Estranho. Ou a casa estava se inclinando e movendo a cadeira, como em uma embarcação, ou a cadeira estava se movendo sozinha... estava ali, estática, como se detivesse os movimentos ao ser liberta.
Besteira.
Alessa fechou a porta novamente, pondo em sua cabeça que haveria alguma explicação lógica. Trovejava forte. Voltou suas preocupações para outro fato: e se faltasse luz? Não trouxera lanterna, e morria de medo do escuro. Em sua cidade bastava uma chuvinha para a energia ir embora. Andou até a cozinha. Achou dois maços de velas. Pegou três, o suficiente para emergências.
Havia comida na geladeira, mas resolveu não mexer, temendo a reação do dono. Optou por algo que trouxera consigo na bagagem. Pegou uma caixa de fósforos e subiu as escadas quase correndo.
Se não estivesse distraída, notaria que a cadeira de rodas estava do lado de fora do compartimento da escada...
Já no quarto, retirou da bagagem um gravador portátil e o conectou em uma tomada. Escolheu um CD bem agitado do Marilyn Manson, e colocou no mais alto volume. A música era a única coisa que afazia relaxar de verdade, esquecer do medo. Sabia que algumas músicas do cantor eram satânicas, mas não entendia nada que ele dizia mesmo... E era medo o que estava sentindo com a forte chuva lá fora e as sensações estranhas na casa.
Um forte trovão explodiu no céu, como um sinal de fúria por causa da música. Alessa assustou-se, principalmente porque o temível aconteceu: as luzes se foram, junto com as blasfêmias de Manson. A casa mergulhou no mais profundo breu.
Uma sensação familiar assaltou a jovem professora. Sensação esquecida desde os seus tempos de criança, de estar na escuridão, sozinha na casa, com uma forte chuva lá fora... Era o medo. Há tempos não o experimentara daquela maneira. Não era medo de bandidos ou quaisquer outros perigos urbanos... era o primitivo e angustiante medo do sobrenatural.
Deixara as velas no bolso, junto com os fósforos. Acendeu uma delas tremendo. Dizia a si mesma que era adulta, que não existiam essas baboseiras sobre o além, fantasmas e afins. Sorriu nervosa. De que estava com medo? Acendeu as outras duas e as pôs sobre o criado mudo. E agora? Sem som ou TV, não tinha nada para se distrair e passar o tempo. Lembrou-se do seu celular. Podia ficar olhando fotos, vídeos ou jogando algum jogo inútil até o sono bater. Pegou o aparelho na bolsa, virando-se sobressaltada para a porta. Alguma coisa passara no corredor? Andou até a porta, trêmula. E se houvesse alguém na casa além dela? Alguma coisa havia passado apressada de um lado ao outro da porta. O que seria? A chama da vela que segurava estava trêmula, com sua chama bruxuleante agitando as sombras ao seu redor, e se não estivesse vidrada na porta do quarto, teria notado no canto esquerdo do cômodo...
... uma velha senhora ajoelhada de costas, com as mãos em prece.
A vela iluminou o corredor. Haviam outras portas fechadas. Experimentou cada maçaneta, certificando-se de que estavam trancadas. Ouviu um barulho estranho, vindo do andar de baixo. Aguçou os ouvidos, tentando superar o barulho da chuva. O que era? Seria... choro?
Chegou até as escadas, já de olhos arregalados. Não estava preparada para o que aconteceria. No meio da escadaria, viu, até o limite em que a vela iluminava, um homem alto, andando em direção à biblioteca.
O coração disparou.
Bandido? Fantasma?
Suspirou aliviada ao lembrar de uma terceira alternativa: os outros inquilinos da casa. Devia ter chegado e achado que não havia ninguém. Sorriu, batendo na testa. Como não pensara? Cada um tinha a sua chave, podia entrar e sair quando quisesse. Ficou em dúvida. Fazia contato com o outro hóspede logo, ou esperava o amanhecer, temendo assusta-lo como ele fizera?
Fez a opção mais lúcida:
–– Olá?... Eu sou a hóspede novata. Não sabia que tinha mais alguém em casa... – esperou ansiosa uma resposta.
Não houve.
–– Oi!
–– Silêncio.
A voz causou um susto tremendo em Alessa. Vinha do sofá, onde antes estivera sentada. Havia uma mulher sentada, com o rosto enterrado entre as mãos. Estava chorando.
–– Você me assustou... eu... eu sou a hóspede temporária da casa...O que você tem, por que está chorando?
–– Me deixe sozinha! –– cortou a outra, logo em seguida levantando-se do sofá, dando a volta e entrando por uma porta, trancando em seguida.
Alessandra intrigou-se. Definitivamente os outros moradores não estavam a fim de bater papo ou arranjar novos amigos. Deviam está cheios de estresse do dia e de outros problemas... Mas o importante era que não estava sozinha mais na casa, o que lhe dava um certo conforto.
Subiu o lance de escadas e sentiu uma certa sonolência. Trancou-se no quarto, já apagando a vela que carregava. Rezou à beira da cama e apagou as outras velas, despencando em um sono profundo.
Teve um terrível pesadelo em que uma velha dormia ao seu lado. Acordou com o barulho do despertador do seu celular, pela manhã.
Deu um grito.
Sua mente não acreditava no que estava diante dos seus olhos...



(continua)

Escrito por Dark Gero às 17h44
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, TERESINA, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Livros, Música, Humor em Geral
Outro -

Histórico